Documentação
Relatos
As primeiras igrejas domésticas e o baptistério de São João de Latrão
Lugares de Roma (12)
O titulus era uma tabuínha de madeira que se pendurava na entrada das vilas romanas, onde estava escrito o apelido do proprietário; a vivenda também era denominada com o nome da gens, ou linhagem familiar.
Com o decorrer do tempo, muitas domus ecclesiae acabaram por ser doadas à Igreja e, quando houve liberdade de culto, edificaram-se templos cristãos sobre esses veneráveis lugares, cuja história remontava à época apostólica nalguns casos, e a famosos mártires romanos noutros. A partir do século IV, cada uma das primitivas igrejas domésticas foi dedicada a um santo, em bastantes casos ao antigo proprietário do imóvel, que tinha entregue não só a sua casa mas a pópria vida pela fé.
Os títulos que aparecem mencionados em alguns documentos antigos traçam uma espécie de mapa onde se pode observar como estavam distribuídos os cristãos pela Urbe até ao século III. Os mais antigos são o titulus Clementis (hoje igreja de São Clemente), Anastasiae (Santa Anstácia), Vizantis (São João e São Paulo, no Celio), Equitii (Santos Silvestre e Martinho ‘ai Monti’, no Esquilino), Chrysogoni (São Crisógono, no Trastevere), Sabinae (Santa Sabina, no Aventino); Gaii (Santa Susana); Crescentianae (São Sisto) e Pudentis (Santa Pudenciana).
Estes nove títulos remontam às origens do cristianismo em Roma e há outros três que datam dos finais do século III: o titulus Callisti (hoje Santa Maria in Trastevere), Ceciliae (Santa Cecília) e Marcelli (São Marcelo ‘al Corso’).
Calcula-se que antes do Edito de Milão (ano 313) existiam mais de vinte títulos ou igrejas domésticas na Cidade Eterna. Nessa altura já aproximadamente um terço da população se tinha convertido ao cristianismo, mas esta realidade não se reflectia na fisionomia urbana, devido ao facto de a Igreja carecer de personalidade jurídica. O imperador Constantino, além de ter autorizado publicamente o culto cristão, promoveu a construção das primeiras basílicas cristãs, em Roma e em Jerusalém.
Cúpula do Baptistério
Um povo de estirpe nobre
Na Cidade Eterna, o primeiro templo cristão que se edificou foi a basílica Lateranense, nos terrenos até então ocupados por um quartel da guarda privada do imperador. Durante bastantes séculos – até ao período de Avinhão - ali esteve a cátedra papal, pelo que esta basílica merecia o título de cunctarum mater et caput ecclesiarum, que ainda hoje se lê numa inscrição junto à entrada.
De princípio, recebeu o nome de Basílica do Salvador, mas na época medieval dedicou-se também a São João Baptista e a São João Evangelista: O Papa Silvestre consagrou-a no ano de 318, embora ainda tenham passado algumas dezenas de anos até ter sido concluida. Desde então, foi reconstruída várias vezes por causa de roubos, terramotos e incêndios. O edifício actual data de meados do século XVII e deve-se a Borromini, embora a fachada e a ábside tenham sido transformadas posteriormente.
Um pouco separado da Basílica, na esquina direita da grande praça de São João, destaca-se um edifício de planta octogonal e de aspecto antigo, sobriamente adornado, mas de linhas harmoniosas. É o baptistério. Data do século V, e foi construido durante o pontificado de Sisto III, sobre um outro primitivo que Constantino tinha mandado edificar.
Nas paredes, cinco frescos reproduzem episódios da vida de Constantino, entre os quais são de destacar a aparição da Santa Cruz com a promessa: in hoc signo vinces (com este sinal vencerás), que sucedeu – segundo a tradição - quando o imperador estava acampado com o seu exército na zona de Saxa Rubra, na véspera da batalha de Ponte Milvio em que Constantino derrotou Majêncio
A piscina circular onde antigamente os cristãos eram baptizados por imersão fica no centro, rodeada por oito formosas colunas de pórfiro com capitéis jónicos e coríntios. Essas colunas sustentam uma arquitrave, que tem inscritos uns versos em latim, atribuídos ao Papa São Sisto III (432-440), onde se resume, de forma admirável, a doutrina cristã sobre o Baptismo. Soam tão magnificamente, que vale a pena lê-los na língua original. Por baixo acrescentamos a tradução.
GENS SACRANDA POLIS HIC SEMINE NASCITVR ALMO
QVAM FECVNDATIS SPIRITVS EDIT AQVIS
VIRGINEO FETV GENITRIX ECCLESIA NATOS
QVOS SPIRANTE DEO CONCIPIT AMNE PARIT
COELORVM REGNVM SPERATE HOC FONTE RENATI
NON RECIPIT FELIX VITA SEMEL GENITOS
FONS HIC EST VITAE QVI TOTVM DILVIT ORBEM
SVMENS DE CHRISTI VVLNERE PRINCIPIVM
MERGERE PECCATOR SACRO PVRGANTE FLVENTO
QVEM VETEREM ACCIPIET PROFERET VNDA NOVVM
INSONS ESSE VOLENS ISTO MVNDARE LAVACRO
SEV PATRIO PREMERIS CRIMINE SEV PROPRIO
NVLLA RENASCENTVM EST DISTANTIA QVOS FACIT VNVM
VNVS FONS VNVS SPIRITVS VNA FIDES
NEC NVMERVS QVEMQVAM SCELERVM NEC FORMA SVORVM
TERREAT HOC NATVS FLVMINE SANCTVS ERIT
Aqui nasce um povo de nobre estirpe destinado ao Céu,
que o Espírito gera nas águas fecundadas.
A Mãe Igreja dá à luz na água, com um parto virginal
os que concebeu por obra do Espírito divino.
Esperai o reino dos céus, os renascidos nesta fonte:
a vida feliz não acolhe os nascidos uma só vez.
Aqui está a fonte da vida, que lava toda a terra,
que tem o seu princípio nas chagas de Cristo.
Submerge-te, pecador, nesta corrente sagrada e purificadora,
cujas ondas, a quem recebem envelhecido, devolverão renovado.
Se queres ser inocente, lava-te nestas águas,
tanto se te oprime o pecado herdado como o próprio.
Nada separa já os que renasceram, feitos um
por uma só fonte baptismal, um só Espírito, uma só fé.
A nenhum aterrorize o número ou a gravidade dos seus pecados:
o que nasceu desta água viva será santo.
Apóstolo de apóstolos
Pelo Baptismo todos os cristãos são chamados à santidade e ao apostolado. A inscrição do baptistério lateranense mostra que essa consciência estava muito viva nas origens do cristianismo. Por isso, São Josemaria ao explicar o espírito do Opus Dei o comparava com a vida dos primeiros cristãos. Eles viviam profundamente a sua vocação cristã; procuravam muito a sério a perfeição a que eram chamados, pelo facto, simples e sublime, do Baptimo[1].
Nos primeiros séculos, os neófitos eram baptizados com uma tríplice imersão – em honra da Santíssima Trindade - na piscina do baptistério, e traziam durante toda a semana seguinte uma túnica branca, como manifestação de, uma vez purificada a sua alma com as águas da regeneração, não quererem voltar a manchá-la com o pecado. Se tinham a desgraça de cair, recorriam cheios de dor ao Sacramento da Penitência. Mas quão grandes eram os seus desejos de santidade, que longe estava a sua luta de ser uma luta negativa...! Sentiam-se felizes por terem encontrado a Verdade e o Bem – o Amor de Deus - e desejavam também, como é natural, ir até Deus acompanhados por muitos outros: parentes, amigos, vizinhos, companheiros de ofício... Anunciaram o Evangelho com alegria, e o Senhor concedeu-lhes muito fruto, mas sabemos que em certas ocasiões difundir a mensagem de salvação significou para eles arriscar a vida ou sofrer graves contradições. Contudo, os primeiros cristãos não se detiveram diante dos obstáculos: na sua conduta voltaram muitas vezes a ressoar as palavras pronunciadas por Pedro e João quando os pretendiam calar: “não podemos, pois, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”[2].
Hoje como ontem cabe aos baptizados a tarefa de trabalhar para que a salvação chegue a todas as partes e a todos os homens[3]. Por isso, nós cristãos não só procuramos fazer apostolado pessoal, mas encorajamos também os nossos amigos a também eles serem apóstolos e a se comprometerem na maravilhosa tarefa de aproximar almas a Cristo.
Cada um de vós, há-de procurar ser apóstolo de apóstolos[4], escreveu São Josemaria em Caminho. Deus conta com cada um dos cristãos para que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”[5]. Por isso, é urgente que todos os baptizados tomem consciência da sua vocação para a santidade e para o apostolado. Assim aproximarão muitas pessoas da felicidade e serão eles próprios muito felizes, porque encherão de sentido cristão e de esperança qualquer realidade humana: pelo Baptismo, somos portadores da palavra de Cristo, que serena, que inflama e aquieta as consciências feridas. E para que o Senhor actue em nós e por nós, temos de lhe dizer que estamos dispostos a lutar cada dia, ainda que nos vejamos frouxos e inúteis, ainda que sintamos o peso imenso das misérias pessoais e da pobre debilidade pessoal. Temos de lhe repetir que confiamos n’Ele, na sua ajuda: se é preciso, como Abraão, contra toda a esperança (Rm 4, 18). Assim trabalharemos com renovado empenho e ensinaremos as pessoas a reagirem com serenidade, livres de ódios,de receios, de ignorâncias, de incompreensões, de pessimismos, porque Deus tudo pode[6].
Notas
[1] São Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo, n. 24
[2] Actos, 4, 20.
[3] Cfr. Concílio Vaticano II, Decreto Apostolicam actositatem, nº 3.
[4] São Josemaria, Caminho, n. 920.
[5] 1 Tm 2, 4.
[6] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 210.
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