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Como uma criança que balbucia

Etiquetas: Agradecimento, Contemplar, Infância espiritual, Oração
Apresentamos parte de uma meditação de S. Josemaria Escrivá, poucos meses antes do seu falecimento, onde reflectia sobre o que tinha sido a sua vida. Foi no dia 27 de Março de 1975, véspera das suas bodas de ouro sacerdotais. De manhã muito cedo – como era seu costume - foi ao oratório para fazer uns minutos de oração com outras pessoas da Obra. Sentou-se ao fundo. Logo que começou a oração, começou a dizer:


S. Josemaria em Março de 1973
S. Josemaria em Março de 1973
Adauge nobis fidem! Aumenta-nos a fé, estava eu a dizer ao Senhor. Quer que eu lhe peça isto: que nos aumente a fé. Amanhã não vos direi nada; e agora nem sei o que vos vou dizer… Que me ajudeis a dar graças a Deus Nosso Senhor por este cúmulo imenso, enorme, de favores, de providências, de carinho… de pancadas! Que também são carinho e providência.

Passados cinquenta anos, estou aqui como uma criança que balbucia: estou a começar, a recomeçar, como na minha luta interior de cada dia. E assim até ao fim dos dias que me restam: sempre a recomeçar. O Senhor assim o quer, para que não haja em nenhum de nós motivos de soberba nem de vaidade néscia. Temos de viver dependentes d’Ele, dos seus lábios, com o ouvido atento, com a vontade tensa, disposta a seguir as divinas inspirações.

Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegria, tudo alegrias… Porque temos a experiência de que a dor é o martelo do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus que temos de ser.

Senhor, obrigado por tudo, muito obrigado! Já te dei graças. Habitualmente dei-te graças. Antes de repetir agora esse grito litúrgico – gratias tibi, Deus, gratias tibi! – já o ia dizendo com o coração. E agora são muitas bocas, muitos peitos, que te repetem em uníssono o mesmo, porque não temos motivos senão para te dar graças.

A vida de cada um de nós tem de ser um cântico de acção de graças, pois como é que se fez o Opus Dei? Fizeste-o Tu, Senhor, com quatro gatos pingados… Stulta mundi, infirma mundi, et ea quod non sunt. Toda a doutrina de S. Paulo se cumpriu: procuraste meios completamente ilógicos, nada adequados e estendeste o apostolado pelo mundo inteiro. Dão-te graças em toda a Europa e em vários pontos da Ásia, da África, em toda a América e na Oceânia. Em todos os sítios te dão graças.

Adoro o pai, o Filho e o Espírito Santo, Deus único. Eu não compreendo essa maravilha da Trindade, mas Tu puseste na minha alma ânsias, fome de crer. Creio! Quero crer como quem mais crê. Espero! Quero esperar como quem mais espera. Amo! Quero amar como quem mais ama.

Tu és quem és: a Suma bondade. Eu sou quem sou: o último trapo sujo deste mundo apodrecido. E, no entanto, olhas para mim… Buscas-me… e amas-me, Senhor! Que os meus filhos te vejam, te procurem, te amem, Senhor: que eu te procure, que eu te veja, que eu te ame.

Quando vejo que entendo tão pouco das tuas grandezas, da tua bondade, da tua sabedoria, do teu poder, da tua formosura… quando vejo que entendo tão pouco, não me entristeço; alegro-me por seres tão grande que não cabes no meu pobre coração, na minha cabeça miserável. Meu Deus!... Como não sei dizer-te mais nada, basta dizer-te: Meu Deus! Toda essa grandeza, todo esse poder, toda essa formosura… Minha! E eu… Seu!

Esforço-me por chegar à Trindade do Céu através da trindade da Terra: Jesus, Maria e José. É como se estivessem mais acessíveis. Jesus, que é perfectus Deus e perfectus Homo. Maria que é uma mulher, a mais pura criatura, a maior; mais do que Ela só Deus. E José, que se segue imediatamente a Maria: limpo, varonil, prudente, íntegro: Ó meu Deus! Que modelos! Só de olhar para eles, sentimos desejos de morrer de pena: porque, Senhor, tenho-me portado tão mal!... Não tenho sabido acomodar-me às circunstâncias, divinizar-me. E Tu davas-me os meios necessários e ainda mos dás e continuarás a dá-los… pois nós temos de viver humanamente na Terra à maneira divina.

Temos de estar - tenho consciência de vo-lo ter recordado muitas vezes – sempre no Céu e na Terra. Não entre o Céu e a Terra, porque somos do Mundo. No mundo e no Paraíso ao mesmo tempo! Esta seria a melhor forma de exprimir a nossa vida, enquanto permanecemos in hoc saeculo. No Céu e na Terra, endeusados; mas sabendo que somos do mundo e que somos terra, com a fragilidade própria do que é terra; um vaso de barro que o Senhor se dignou aproveitar para o seu serviço. E quando se quebrou, recorremos aos grampos, como o filho pródigo.

O Senhor quis depositar em nós um tesouro riquíssimo. Exagero? Disse pouco. Disse pouco agora, porque antes disse mais. Recordei que em nós habita Deus, Senhor Nosso, com toda a sua grandeza. Nos nossos corações há habitualmente um Céu. E não vou continuar.

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