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Cristóvão Colombo e Josemaria Escrivá
Peter Berglar

Foram jovens com uma grande capacidade de entusiasmo, com uma sede espiritual de aventuras e com um coração generosamente disposto para um caminho rico em descobertas espirituais. Reuniram-se com confiança em volta do Padre que os guiava até regiões desconhecidas.
Os caminhos ainda não existiam: era preciso abri-los. Espreitavam perigos, insuspeitados. Essas regiões de conquista não se perdem na névoa longínqua nem são ilhas lendárias, estão muito próximas: no chão que se pisa, na nossa vizinhança, entre os nossos colegas e concidadãos. Contudo, continua sendo terra desconhecida, terra por descobrir.
Um pouco de história
Ainda que a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, com os seus milhões de membros, viva e actue há mil novecentos e noventa anos na História da humanidade, recebeu nos nossos tempos um novo alento, definitivo e cheio de vida, para pôr Cristo no cimo das actividades humanas.
A Igreja conheceu ao longo da sua história – também a contemporânea –, muitos desses grandes impulsos «renovadores» e «inovadores». Grande força espiritual e docente teve o Concílio de Trento e os anos que se lhe seguiram. Que grandioso o número de santos na época da Contra Reforma e também nos séculos XIII e XIX! E o romantismo europeu, não foi em boa parte uma «renovatio catholica»?
Contudo, temos de reconhecer um facto inegável: os últimos quinhentos anos, com o Renascimento, o Humanismo, o Protestantismo, o Século das Luzes, os diversos socialismos – sem entrar em juízos e deixando de lado o papel que possam ter no plano divino da salvação –, mostraram e demonstraram que a «impregnação do mundo com o espírito cristão» foi muito menor do que se pode crer ao ver tantos testemunhos da cultura cristã.
Entre as convicções mais duras de admitir, mas mais necessárias, que o século XX trouxe aos cristãos que não querem continuar adormecidos, mas sim despertar do sono, é a de que a «cultura cristã», com as suas catedrais e mosteiros, as suas esculturas, pinturas e livros, seus usos e costumes, é uma coisa, e outra muito diversa, é a santidade pessoal dos cristãos, a sua identificação com Cristo.
Essas duas coisas não vão necessariamente unidas; inclusivamente poderíamos dizer que a grandeza e a beleza da cultura cristã podem servir como desculpa ou como estratagema, provocando um insuficiente seguimento pessoal de Cristo, encarnado individualmente: a «cultura cristã» pode afogar a «santidade», sem que a consciência do homem corrente seja capaz de distinguir estes dois conceitos.

À luz destas considerações, a figura de Monsenhor Escrivá, a sua mensagem e o Opus Dei adquirem a sua verdadeira dimensão histórica e salvífica, pois dessa mensagem infere-se que a beleza e a riqueza dos caminhos e das obras cristãs caracterizadas pelo especial, o extraordinário – que glorifica a Deus e que, por isso, podemos e devemos admirar e querer –, não deve excluir o impregnar o mundo com o fermento de Cristo por meio de pessoas correntes que aspiram a alcançar a santidade na vida vulgar, que é para elas, lugar e meio de santificação. «Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação» (1 Tes 4, 3). Neste ponto – hoje como ontem – estamos a começar… e não só isso, mas sim que temos muito terreno a recuperar.
O Fundador do Opus Dei explicava o significado de tudo isto numa homilia que se tornou famosa; foi pronunciada a 8 de Outubro de 1967 diante dos estudantes, professores, funcionários e amigos da Universidade de Navarra, reunidos em Pamplona: «Deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar de família e em todo o imenso panorama do trabalho, Deus nos espera cada dia. Ficai a sabê-lo: escondido nas situações mais comuns, há algo de santo, de divino, que cabe a cada um de vós descobrir».
O materialismo cristão
Quando não o descobrimos, então – digamo-lo com palavras de Mons. Escrivá - «o templo passa a ser o lugar por excelência da vida cristã; e ser cristão, nesse caso, consiste em ir ao templo, participar em cerimónias sagradas, incrustar-se numa sociologia eclesiástica, numa espécie de mundo segregado, que se apresenta a si mesmo como a antecâmara do Céu, enquanto o mundo comum segue o seu próprio caminho. A doutrina do Cristianismo, a vida da graça, passariam, pois, como que roçando o atribulado avançar da história humana, mas sem se encontrar com ele».
É o próprio Fundador do Opus Dei quem nos diz que isto, e nada mais que isto, era o cerne do que havia pregado há trinta e nove anos atrás: «Eu costumava dizer àqueles universitários e àqueles operários que vinham ter comigo por volta de mil novecentos e trinta, que tinham que saber materializar a vida espiritual. Queria afastá-los assim da tentação, tão frequente então e agora, de viver uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas. Não meus filhos! Não pode haver uma vida dupla; se queremos ser cristãos não podemos ser esquizofrénicos. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus, deste Deus invisível, que nós encontramos nas coisas mais visíveis e materiais. Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida corrente, ou nunca O encontraremos».
Uma descoberta pessoal
Este encontro, esta descoberta, tem as suas particularidades: ninguém pode realizá-lo em lugar do outro, cada um tem de o fazer por si mesmo. Quando Cristóvão Colombo chegou à América à procura do caminho para a Índia pelo Ocidente, realizou uma descoberta única subjectivamente, e de valor universal objectivamente.
Esse Novo Mundo trazia uma massa ingente de «matéria-prima» para o esforço humano, para a luta e para o sacrifício, para vitórias e derrotas; um tesouro em bruto em que tudo estava por fazer, sem excluir trabalhos, sofrimentos, heroicidades e crimes…, mas excluindo, isso sim, uma só coisa: não podia ser descoberto outra vez; desde 12 de Outubro de 1492, a América existia para todos os homens; também antes já existia, mas só a partir desse momento começavam a ter consciência dele.
Pois bem, para ter essa consciência não é preciso empreender pessoalmente a viagem e investigar se Colombo teve razão com a sua descoberta. Esta é a diferença, notável diferença, no que diz respeito à descoberta espiritual que Mons. Escrivá levou a cabo: Deus espera os homens no meio do mundo; Deus quer que o homem o encontre na vida quotidiana, na vida desse homem, que quer dar forma ao mundo; Deus quer que o homem seja seu colaborador na cristianização do mundo, e desde o princípio da sua criação previu que deve colaborar mediante o exercício normal de todas as actividades humanas, pessoais ou sociais, que não sejam pecado…
E todas essas tarefas devem ser realizadas em união com Cristo, para poder oferecê-las a Deus. Mas esta descoberta não é transferível; só se torna realidade quando cada um, pessoalmente, a realiza. Por isso, a pregação de Mons. Escrivá e a sua mensagem não passam de uma espécie de fantasia para todo aquele que não se põe a caminho e procura encontrar Cristo – o Cristo vivo, também o Cristo com a Cruz – nas «coisas pequenas» de cada dia, identificando-se assim com Ele.
Antes e depois do Descobrimento
Se se estabelecerem bem os parâmetros, a comparação entre Cristóvão Colombo e Mons. Escrivá – que não é, em princípio, mais que uma ideia minha – terá consequências tão estimulantes que vou tentar aprofundar nela mais um pouco. Sabemos que a América, antes do «Descobrimento», já tinha sido «encontrada» várias vezes por povos oriundos da Europa. Mas a chegada de quem sabe que barcos vikings nos séculos X e XI não teve qualquer consequência: a pouca ou nula tomada de consciência daqueles navegadores, assim como o contexto global da época – no intelectual e religioso, no económico e social –, impediram que aquele acontecimento se convertesse num facto de ressonância universal.
E a verdade é que, na humanidade e na cristandade, não havia ainda «demanda» de um Novo Mundo; não havia chegado a hora, o «kairós». Por isso, todo o assunto voltou a cair no esquecimento ou, pelo menos, no claro-escuro da lenda, tal como já tinha caído o saber que antigamente se tivera de que a terra é redonda.
Não é que os homens, antes do descobrimento da América, tivessem permanecido inactivos no que se refere à exploração e à conquista do mundo; o que sucedia era que olhavam noutra direcção; centravam-se na Europa e nos países mediterrânicos ou dirigiam-se para o Oriente; só relativamente mais tarde começaram a interessar-se pela África central e meridional.
Para que Cristóvão Colombo pudesse entrever e realizar a sua missão face à história universal foi preciso que, em finais do século XV, se produzisse, juntamente com um desenvolvimento multi-secular da Europa na história das ideias, uma conjugação muito particular de factores políticos e económicos, especialmente no mundo ibérico, com o desenvolvimento do poder real, graças à união de Castela e Aragão e à sua situação geográfica.
Por outro lado, a biografia do navegador genovês foi, entre o seu nascimento em 1451 e aquela sexta-feira 12 de Outubro de 1492, em que às duas da manhã viu a terra que havia de ser como a vanguarda do «Novo Mundo» - a costa da ilha Guanahaní, que mais tarde se denominaria São Salvador –, como uma longa preparação para levar a cabo a sua missão. Sabemos, também, que, do outro lado do Atlântico, as culturas pré colombinas estavam mergulhadas na decadência. Em conclusão: tinha chegado a hora.
Desde o século I
Pois bem, o que eu quero mostrar com esta comparação entre estes dois descobridores de um ‘mundo novo’ – geográfico e espiritual – é que também aquilo que Deus mostrou a Josemaria Escrivá a 2 de Outubro de 1928 – aquilo que depois se tornou o conteúdo da sua mensagem e na realidade do Opus Dei – era «conhecido», e mais que conhecido, pois nos três primeiros séculos do cristianismo tinha sido o normal. Muito antes de que houvesse «padres do deserto» e «eremitas», ordens religiosas e conventos, nas cidades do imenso império romano milhares e milhares de cristãos levavam uma vida completamente normal como cidadãos do império, cada um no seu estado, como solteiros, casados ou viúvos, como agricultores ou funcionários, como militares ou civis, como livres ou escravos, como crianças, homens ou mulheres…
Para eles só existia essa vida normal, e por isso estavam convencidos que nela tinham de se santificar e fazer apostolado para assim aumentar o número de cristãos. Onde teriam de o fazer, senão na vida corrente? Como teriam de o fazer, senão fosse por meio da santificação da vida do dia-a-dia? Os primeiros mártires e a grande maioria dos cristãos que foram assassinados pela sua fé não eram pessoas numa situação especial, mas sim membros normais e correntes das comunidades cristãs, do «povo»… Foi mais tarde, ao longo do multissecular desenvolvimento histórico da cristandade e da Igreja, que se foi apagando a consciência de que se deve «empapar» o mundo com o espírito cristão, algo que normalmente, só podem realizar os que vivem no mundo e que só excepcionalmente se pode levar a cabo de fora, actuando ab externo.
Os primeiros cristãos
Sem dúvida que se deram – e continuam a dar-se – admiráveis florescimentos de vida cristã e um tesouro incalculável de santidade, muito digno de veneração, em e através dos conventos, e ninguém desejará prescindir da herança monástica de milénio e meio, ou negar ou depreciar a sua importância; mas precisamente quem ama esse tesouro e quer conservá-lo e tomá-lo como ponto de partida para um novo futuro da Igreja sabe que só será possível quando reconhecer de novo como norma habitual da existência cristã a santidade dos primeiros cristãos, uma santidade que Mons. Escrivá redescobriu, concretizou e pôs como fundamento da missão cristã no mundo; santidade que o Concílio Vaticano II apresentou à cristandade como norma universal, válida em todos os tempos.
E, como no caso de Colombo, a missão de Mons. Escrivá – aquela redescoberta espiritual – requeria uma preparação, um longo desenvolvimento na história da Igreja e uma evolução das ideias, assim como as duras provações que a Igreja teve que superar nos últimos quinhentos anos.
Era necessário que tivessem ocorrido situações históricas tão especiais como as que se deram no primeiro e segundo terço do século XX em Espanha, na Europa, no mundo e também dentro da Igreja. E, sobretudo, era necessária a preparação do «descobridor», de quem temos vindo a falar. Do ano de 1928 pode dizer-se o mesmo que do ano de 1492: tinha chegado a hora…
Homens sem medo
Cristóvão Colombo – Josemaria Escrivá: dois descobridores; um servindo a Espanha, o outro espanhol. Os dois tinham predecessores: por várias vezes se tinham feito ao mar os navegadores a caminho do Ocidente, mas os ventos contrários e as circunstâncias adversas tinham-nos obrigado a voltar atrás…
Que o apostolado dos leigos é necessário, que é preciso estimular o «povo de Deus», que se deve e se pode santificar a vida corrente, já tinham sido expressos antes da fundação do Opus Dei. Essas ideias tinham sido expostas e tinha havido tentativas de as pôr em prática: basta lembrar São Francisco de Sales, São Vicente Palotti, o Movimento de Oxford e o Cardeal Newman, as declarações dos Papas Paulo III, Pio VII, Pio IX, Leão XIII e Pio X.
Contudo, estas iniciativas não abordavam o problema em toda a sua profundidade e radicalidade, porque o seu ponto de partida não era a vida do leigo no seu próprio estado, com uma chamada específica à santidade. Tentavam aproximar o estado do leigo ao do religioso, com uma consequência quase inevitável: a de apresentar ao homem corrente uma espiritualidade quase-religiosa, estranha ao seu próprio estado.
Colombo e Mons. Escrivá: homens arrojados, sem medo, totalmente convencidos da existência de uma providência divina, perseverantes, dispostos e capazes dos maiores sacrifícios e esforços… Ambos realizaram o que lhes tinha sido cometido.
Tiveram de reactivar potencialidades humanas que pareciam esquecidas. Realizaram uma revolução de grande alcance que paulatinamente se foi tornando visível em todas as suas dimensões e consequências.
Um novo Mundo
A nenhum dos dois faltaram inimigos: o descobridor do Novo Mundo regressou em 1500 da sua terceira viagem à América… preso. O Fundador do Opus Dei foi tão caluniado no começo dos anos quarenta em Espanha, e sobretudo em Madrid e Barcelona (chamaram-lhe herege e maçon), que temeu ser preso em mais de uma ocasião, pelo que teve de se esconder ou até dissimular o próprio nome.
Mas aqui terminam os pontos de comparação que partem do conceito comum do «descobrimento». Pois enquanto Cristóvão Colombo quase não teve influência sobre as consequências do seu feito nem sobre o seu desenvolvimento, porque não era necessário, a natureza da «descobrimento» de Monsenhor Escrivá implicava que ele próprio tivesse de o espalhar e aprofundar até chegar a fazer parte do tesouro da Igreja em tempos futuros e da consciência da humanidade.
Cristóvão Colombo morreu convencido de ter descoberto o caminho pelo Ocidente para as «Índias»: outros fizeram daqueles países «América». Mons. Escrivá não só foi o primeiro a pisar as novas «terras» da santidade laical, como também, com a graça de Deus, foi formando o povo que teria de habitar, cultivar e espalhar aquelas «terras».
Extracto de Opus Dei. Leben und Werk des Gründers Josemaría Escrivá, Salzburg, Otto Müller, 1983, 364 p., de Peter Berglar.
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