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"Encontrarás dragões" na blogosfera
Nuno Lobo
'Encontrarás dragões' no blog "Cachimbo de Magrite"
Realizado por Roland Joffé, Encontrarás dragões inscreve-se no domínio dos filmes épicos, mas a grandeza da produção não é suficiente para ocultar as deficiências na ligação entre as histórias de cada uma das personagens e os tempos da sua vida, nem rivalizar com os filmes com que iniciou a carreira na década de 80, como Terra Sangrenta (The Killing Fields) e A Missão.
Chamado a escrever uma peça jornalística sobre a vida de Josemaria Escrivá (Charlie Cox), o sacerdote que dedicou a vida a difundir o Catolicismo pelo mundo através da santificação dos homens no seio da família e do trabalho quotidiano, Robert (Dougray Scott) entra em contacto com Manolo (Wes Bentley), o pai de quem está afastado há demasiado tempo, mas que em tempos passados fora amigo do fundador do Opus Dei. Este é o ponto de partida de um filme sustentado em anacronias: desde a infância de Josemaria e Manolo no início do século XX até à morte em 1975 do sacerdote que João Paulo II canonizará em 2002, passando pelo momento fundador do Opus Dei na década de 20 e a Guerra Civil de Espanha na década de 30.
O filme é ainda feito de oposições, desde logo entre a vida de Josemaria e Manolo, com evidente primazia do primeiro sobre o segundo, mas também entre os dois lados da tragédia civil que assolou Espanha, onde o habitual romantismo associado às intenções do lado republicano não deixa de ser justamente contrabalançado pela perseguição ao clero de que resultou a morte de 13 bispos e milhares de padres, monges e freiras. Finalmente, num ou outro momento quase imperceptível, o filme consegue revelar algo da tradicional oposição entre fé e razão, mais uma vez com algum favorecimento da natureza misteriosa da vida, para a qual nos remete os dragões do título (hic sunt dracones - "aqui há dragões" - é a frase com que os medievais assinalavam nos mapas os territórios e mares ainda desconhecidos). Mas é somente nos minutos finais que o filme adquire um sentido pleno, quando finalmente percebemos que o perdão é a virtude humana capaz de unir todos os elementos opostos e dar um derradeiro sentido à vida dos homens e das mulheres.
A recepção do filme tem sido ambígua e não são poucos os críticos que lhe apontam deficiências. Uma das críticas recorrentes indica que Encontrarás dragões carece de espiritualidade, um elemento naturalmente fundamental quando se trata de um filme sobre a vida de um Santo. Resta saber, contudo, se é o filme que carece de espiritualidade ou se são os críticos incapazes de a detectar quando ela se apresenta diante deles. É certo que Encontrarás dragões não apresenta a experiência religiosa dos homens da mesma forma que o faz, por exemplo, o filme de 2010 Dos deuses e dos homens, mas a espiritualidade pode ser experienciada de várias formas. A espiritualidade está presente em Encontrarás dragões nos pequenos gestos quotidianos de amor, delicadeza, e prudência que tocam de perto as pessoas de quem nos aproximamos em todos os momentos das nossas vidas. Este amor, delicadeza, e prudência está decididamente patente nos primeiros anos do sacerdócio de São Josemaria retratados no filme, mas está também presente em Ildiko (Olga Kurylenko), a voluntária húngara que combate no lado do exército republicano, concretamente numa fala particular reveladora de uma outra forma de amor e delicadeza, muito embora já sem a prudência exigida pela ortodoxia católica.
Talvez um dos aspectos principais a considerar no filme seja, precisamente, o contraste entre as grandes vagas da História e os pequenos gestos da vida, para o qual a espiritualidade do Opus Dei parece apontar quando reserva aos pequenos gestos de amor e ao cuidado com as pequenas coisas do quotidiano um caminho privilegiado para a santidade.
Depois do Código Da Vinci, o livro de Dan Brown que descreve o Opus Dei como uma seita secreta e conspirativa, destinada a todas as maldades, este Encontrarás dragões surge junto da opinião pública como uma tentativa de repor alguma da verdade perdida. Sob este horizonte, estou convencido de que o filme não deixará de atingir o sucesso desejado. De qualquer modo, Encontrarás dragões não ficará na história das grandes obras do cinema.
Encontrarás dragões, realizado por Roland Joffé, com Charlie Cox, Wes Bentley, Dougray Scott e Olga Kurylenko (EUA 2011)
Realizado por Roland Joffé, Encontrarás dragões inscreve-se no domínio dos filmes épicos, mas a grandeza da produção não é suficiente para ocultar as deficiências na ligação entre as histórias de cada uma das personagens e os tempos da sua vida, nem rivalizar com os filmes com que iniciou a carreira na década de 80, como Terra Sangrenta (The Killing Fields) e A Missão.
Chamado a escrever uma peça jornalística sobre a vida de Josemaria Escrivá (Charlie Cox), o sacerdote que dedicou a vida a difundir o Catolicismo pelo mundo através da santificação dos homens no seio da família e do trabalho quotidiano, Robert (Dougray Scott) entra em contacto com Manolo (Wes Bentley), o pai de quem está afastado há demasiado tempo, mas que em tempos passados fora amigo do fundador do Opus Dei. Este é o ponto de partida de um filme sustentado em anacronias: desde a infância de Josemaria e Manolo no início do século XX até à morte em 1975 do sacerdote que João Paulo II canonizará em 2002, passando pelo momento fundador do Opus Dei na década de 20 e a Guerra Civil de Espanha na década de 30.
O filme é ainda feito de oposições, desde logo entre a vida de Josemaria e Manolo, com evidente primazia do primeiro sobre o segundo, mas também entre os dois lados da tragédia civil que assolou Espanha, onde o habitual romantismo associado às intenções do lado republicano não deixa de ser justamente contrabalançado pela perseguição ao clero de que resultou a morte de 13 bispos e milhares de padres, monges e freiras. Finalmente, num ou outro momento quase imperceptível, o filme consegue revelar algo da tradicional oposição entre fé e razão, mais uma vez com algum favorecimento da natureza misteriosa da vida, para a qual nos remete os dragões do título (hic sunt dracones - "aqui há dragões" - é a frase com que os medievais assinalavam nos mapas os territórios e mares ainda desconhecidos). Mas é somente nos minutos finais que o filme adquire um sentido pleno, quando finalmente percebemos que o perdão é a virtude humana capaz de unir todos os elementos opostos e dar um derradeiro sentido à vida dos homens e das mulheres.
A recepção do filme tem sido ambígua e não são poucos os críticos que lhe apontam deficiências. Uma das críticas recorrentes indica que Encontrarás dragões carece de espiritualidade, um elemento naturalmente fundamental quando se trata de um filme sobre a vida de um Santo. Resta saber, contudo, se é o filme que carece de espiritualidade ou se são os críticos incapazes de a detectar quando ela se apresenta diante deles. É certo que Encontrarás dragões não apresenta a experiência religiosa dos homens da mesma forma que o faz, por exemplo, o filme de 2010 Dos deuses e dos homens, mas a espiritualidade pode ser experienciada de várias formas. A espiritualidade está presente em Encontrarás dragões nos pequenos gestos quotidianos de amor, delicadeza, e prudência que tocam de perto as pessoas de quem nos aproximamos em todos os momentos das nossas vidas. Este amor, delicadeza, e prudência está decididamente patente nos primeiros anos do sacerdócio de São Josemaria retratados no filme, mas está também presente em Ildiko (Olga Kurylenko), a voluntária húngara que combate no lado do exército republicano, concretamente numa fala particular reveladora de uma outra forma de amor e delicadeza, muito embora já sem a prudência exigida pela ortodoxia católica.
Talvez um dos aspectos principais a considerar no filme seja, precisamente, o contraste entre as grandes vagas da História e os pequenos gestos da vida, para o qual a espiritualidade do Opus Dei parece apontar quando reserva aos pequenos gestos de amor e ao cuidado com as pequenas coisas do quotidiano um caminho privilegiado para a santidade.
Depois do Código Da Vinci, o livro de Dan Brown que descreve o Opus Dei como uma seita secreta e conspirativa, destinada a todas as maldades, este Encontrarás dragões surge junto da opinião pública como uma tentativa de repor alguma da verdade perdida. Sob este horizonte, estou convencido de que o filme não deixará de atingir o sucesso desejado. De qualquer modo, Encontrarás dragões não ficará na história das grandes obras do cinema.
Encontrarás dragões, realizado por Roland Joffé, com Charlie Cox, Wes Bentley, Dougray Scott e Olga Kurylenko (EUA 2011)
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