Documentação
Relatos
Maria Pötsch (Áustria)
Viagens marianas (1)
Em Maio de 1955 voltou a esse país da Europa central. Embora a ocupação aliada estivesse vigente, as circunstâncias tinham mudado e São Josemaria pôde estar em Viena.
Meses depois, a 3 de Dezembro de 1955, São Josemaria regressou a Viena. No dia seguinte celebrou a Santa Missa na Catedral de Santo Estêvão. Deu graças depois da Missa, diante da imagem de Maria Pötsch, invocou-a pela primeira vez com a jaculatória Sancta Maria, Stella Orientis, filios tuos adjuva!
Esta invocação da Virgem Maria não era uma entre outras. Pelo que se deduz da correspondência desses dias, tinha a certeza de que, com aquelas palavras, ficava nas mãos da Mãe de Deus o futuro apostolado nos países da Europa submetida aos comunistas. Com efeito, nesse dia 4 de Dezembro, escrevia aos seus filhos de Espanha: Continuo a achar que Viena é um enclave magnífico para o Leste, e que esses filhos darão nessas terras muita glória a Deus Nosso Senhor (…): Fiz hoje um propósito de devoção à Ssma Virgem. E, cinco dias mais tarde, escrevia: Sinto-me seguro ao afirmar que Nosso Senhor nos dará meios abundantes – facilidades, pessoas – para trabalharmos por Ele cada dia melhor na parte oriental da Europa, até que se nos abram – e abrir-se-ão – as portas da Rússia (…). Pede que digam muitas vezes esta jaculatória, Sancta Maria, Stella Orientis, filios tuos adjuva!
Em 1989 deu-se a queda do muro de Berlim, símbolo da divisão da Alemanha e de toda a Europa, e ruíram os regimes comunistas.
Nos últimos vinte anos do século XVII, as tropas austríacas travaram o avanço do Império Turco, e conquistaram, inclusivamente, vastos territórios. Neste período, sucedeu um acontecimento extraordinário na pequena povoação húngara de Pócs, Pötsch em alemão. A 4 de Novembro de 1696, um ícone da igreja paroquial, de manufactura simples, começou a verter lágrimas. O choro durou muitos dias e atraiu uma grande multidão dos arredores e um bom número de oficiais – alguns deles protestantes – das tropas imperiais acampadas nas proximidades. Foram numerosas as testemunhas que prestaram declaração do facto sob juramento. Chegou ao ponto de se desmontar a tábua, perante trezentas pessoas, para realizar um exame pormenorizado, e verificar que não se tratava de uma fraude, como algumas vozes maliciosas tinham difundido. A crónica fala de várias conversões.
O eco do milagre chegou à corte de Viena. O imperador mandou trazer a imagem para se prostrar diante dela e, seguindo o conselho do capelão do palácio, implorar perdão pelos seus pecados de omissão. Depois deveria fomentar a confissão e a comunhão entre o povo, e concretamente a devoção à imagem milagrosa. Maria Pötsch teria de ser levada em procissão pública pela cidade, com a participação de toda a corte, para dar bom exemplo ao povo, e deixá-la exposta na Catedral de Santo Estêvão. Assim se fez. Desde a chegada a Viena, no mês de Julho, até 1 de Dezembro, quando foi entronizada na Catedral, a imagem esteve exposta à veneração dos fiéis em diferentes paróquias, e suscitou grande devoção.
A piedade mariana por meio desta invocação cresceu ainda mais depois da batalha de Zenta, contra as tropas do Sultão. Foi uma grande vitória, em que muitos viram claramente a intercessão da Mãe de Deus. A imagem esteve presente em muitos acontecimentos da história da Áustria. Continua a ser visitada ao longo do ano por milhares de pessoas.
A devoção a Maria Pötsch continua igualmente viva na antiga localidade de Pócs, Hungria, onde se encontra uma cópia que também verteu lágrimas em 1715 e 1905. Actualmente é um dos grandes centros de peregrinação do país e o santuário mais importante para os fiéis greco-católicos. Esta imagem é considerada um símbolo de unidade e ecumenismo que atrai católicos de rito latino e oriental, ortodoxos e protestantes, de várias nações, polacos, russos, rutenos, eslovacos e alemães.
Desde os começos do Opus Dei, São Josemaria tinha sonhado com a expansão apostólica por todo o mundo, também pelos países do Leste da Europa. Quando regressou da Áustria em 1955, a oração do Fundador do Opus Dei tornou-se mais intensa pelas nações que se encontravam sob a dominação comunista.
O Fundador do Opus Dei tinha sofrido na sua pessoa a perseguição religiosa que se desencadeou ferozmente contra a Igreja nos anos da guerra civil espanhola. Esse mesmo fenómeno produzia-se agora em tantas nações de profundas raízes cristãs, provocando um grande número de mártires. “Falava com admiração e agradecimento dos mártires contemporâneos da Igreja. Elogiava concretamente o Cardeal Stepinac, o Cardeal Mindszenty, o Cardeal Beran, e outros muitos que, num ambiente de perseguição, tinham sido confessores da fé. Também nunca esqueceu esses milhões de fiéis desconhecidos que, sem estar na primeira fila, nem receberem o aplauso do resto do mundo, eram coerentes, ainda que com risco da própria vida. E estimulava-nos a rezar para perseverar no caminho, preferindo a morte a renegar a fé”.
1. A Áustria estava dividida em quatro zonas de ocupação controladas pelos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e URSS. Viena dividiu-se de forma similar. A 15 de Maio de 1955 os quatro aliados e a Áustria assinaram o Tratado de Estado que restabeleceu oficialmente a República Austríaca (Cfr. “Áustria”, Enciclopédia Microsoft ®Encarta® Online 2007).
2. Citado por A. Vázquez de Prada, Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, vol. III, p. 267.
3. Lembrando o Beato Josemaría, p. 132.
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