Testemunhos

Não há motivo para tristezas
Pierluigi Bartolomei, director da Escola de Formação Profissional ELIS em 2002, Roma
1 Janeiro 2009
Josemaria era uma pessoa alegre. Para atestar este facto, basta ver os filmes dos seus encontros com pessoas de todo género, durante os quais estava sempre disposto a presentear um sorriso e uma esperança. Mas qual era o segredo do seu constante bom humor? Revela-o Pierluigi Bartolomei, Director da Escola de Formação do Centro Elis de Roma.“O Opus Dei – explica Pierluigi – ajudou-me a fortalecer o meu carácter alegre e criativo. O ponto de partida foi o de compreender uma ideia importante que está na base dos ensinamentos de Josemaria Escrivá: a filiação divina. No momento em que cada um de nós compreende que é filho de Deus, já deixa de ter motivos para estar triste”.
- Então o cristão é um optimista por natureza?
Segundo a minha experiência pessoal posso dizer que sim. Na minha vida houve momentos difíceis, quer no âmbito pessoal quer no profissional. Mas, graças à formação recebida na Obra, e à consciência de ser filho de Deus, consegui superar as adversidades. O Senhor sempre me deu todas as ajudas possíveis e nunca me deixou só.
- Uma vida espiritual levada a sério ajuda a estar alegre?
Para responder a essa pergunta é necessário reflectir sobre a razão pela qual nos sentimos às vezes tristes. Uma pessoa sente-se triste quando não está de acordo com um amigo, um parente, com um colega ou com um vizinho. O mesmo sucede com Deus. Se sentimos na nossa consciência que fizemos alguma coisa mal, perdemos o sorriso. Interrompemos a comunicação com Deus Nosso Senhor. Dá-se uma espécie de black out, de vazio que obscurece os nossos corações.
- E como se faz para voltar a acender a luz e recuperar a alegria?
Felizmente existe a Confissão que nos ajuda a reconciliarmo-nos plenamente com Deus. Josemaria Escrivá era uma pessoa sempre alegre porque acreditava nesta relação de amizade constante e pessoal com o Senhor. Dizia que era um pecador que sabia poder contar com a misericórdia de Deus, Pai de todos os seres humanos. Induzia sempre a começar e a recomeçar, sem nunca nos desanimarmos com as quedas. Na minha opinião, é um grande ensinamento que nos pode ajudar a não perder o optimismo.
- Em que consistia a alegria para Josemaria Escrivá?
Qualquer coisa de muito importante a transmitir aos outros. Não era em balde que ele animava as pessoas com quem se encontrava, e procurava infundir nelas um grande amor pela vida. Na vocação para o Opus Dei que convida a não se afastar do mundo, a alegria desempenha um papel fundamental. Uma pessoa sorridente tem mais possibilidade de aproximar as pessoas de Deus. Em suma, a alegria é também um precioso instrumento de apostolado.
- Mas é possível estar sempre alegre, apesar das contrariedades da vida?
Naturalmente não me refiro à alegria do ignorante. A verdadeira alegria não está na inconsciência daquela pessoa que está sempre a rir. Todos sabemos que a vida, por vezes, pode trazer-nos momentos de dificuldade, de incerteza, que nos põem à prova. O que conta é manter serenidade interior. Uma força que, como disse, nasce da consciência da filiação divina.
- O senhor repete com insistência este conceito. Mas afinal o que significa concretamente ser filhos de Deus?
Vou-lho explicar com um exemplo. Às vezes as crianças sentem medo. Não conhecem a vida na sua complexidade e pode acontecer que fiquem amedrontadas perante uma novidade ou alguma coisa que não conseguem entender. Quando a minha filha se assusta, abraço-a e digo-lhe: ‘Está aqui o papá que te defende. Ninguém te poderá fazer mal’. Deste modo a minha filha fica tranquila e não tem medo de nada. O mesmo sucede com Deus que nos aconchega nos seus braços cheios de amor. Se estamos em paz com Ele, não temos nada a temer. A alegria fica assegurada. Por esta razão Josemaria Escrivá estava sempre feliz e comunicava a sua alegria interior aos outros.
- O senhor procura transmitir também este espírito na sua família?
É o que procuro fazer junto com a minha mulher: transmitir esse espírito, com um pouco de criatividade. Tentamos reservar um tempo para nos divertirmos com os nossos filhos. Por exemplo, aos domingos dançamos juntos músicas sul-americanas. De tarde, depois de comermos, ficamos na sala para conversar, brincar e divertirmo-nos um pouco. Isto ajuda a desdramatizar os problemas e as tensões do dia-a-dia. Se aparecem dificuldades procuramos sempre superá-las de modo positivo. Outro momento importante é aquele a que chamamos “clube de leitura”. Nas quartas-feiras, de tarde, arranjamos em casa um recanto acolhedor, com bebidas e batatas fritas. Assim, procuramos estimular a leitura de um bom livro.
- Vêem também televisão?
Na minha opinião, vê-se televisão de forma errada, não ajuda a manter a alegria. Tempos atrás falava-se mais no seio da família. As pessoas reuniam-se para contarem coisas que lhes aconteciam, para pedirem conselho, e ouvirem-se uns aos outros. Hoje, infelizmente, a televisão ocupa muitas vezes o lugar da comunicação em família e mata as conversas. Nós, com os nossos filhos, procuramos criar situações alternativas à televisão. Além daquilo de que já falei, apreciamos teatro de marionetas. São as próprias crianças que inventam as histórias para as pôr em cena. Assim, os tempos livres tornam-se activos e alegres.
- Então não é preciso muito para estar alegre?
Na realidade é preciso pouquíssimo. Com alguns bonecos e um cordel pode-se montar um pequeno teatro em casa e inventar milhares de histórias. Tudo isto se inclui no espírito do Opus Dei e nos ensinamentos do seu fundador que incitava à santificação através dos acontecimentos da vida corrente. Com muita simplicidade, sem precisar de fazer coisas extraordinárias. A alegria também se pode encontrar, como nós tentamos fazer, num livro, numa conversa na sala, numa fábula inventada, numa dança latino-americana... É a grandeza da vida corrente que Josemaria Escrivá nos ajudou a descobrir.

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