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Newman e Josemaria Escrivá

Padre Mario Arroyo Martínez*

Etiquetas: Beatificação, Bento XVI, Coerência, Leigo
No próximo dia 19 de Setembro, Sua Santidade o Papa Bento XVI presidirá à cerimónia de beatificação do Cardeal John Henry Newman que terá lugar em Inglaterra. O Santo Padre aceitou o amável convite do Governo britânico para realizar aquela que virá a ser a primeira visita oficial de um Pontífice ao Reino Unido, dado que a visita que João Paulo II realizou em 1982 foi uma visita pastoral.

Reproduzimos um artigo publicado no portal Church Forum em que se relacionam as figuras de Newman e a de São Josemaria ao acentuar o importante papel que os leigos são chamados a desempenhar na Igreja:
"A comparação pode parecer muito forçada, muito ténue a relação que existe entre estas duas personagens inovadoras na vida da Igreja, uma do séc. XIX e a outra do séc. XX. O contexto social, cultural e histórico é bastante diferente; um é um convertido, ensaísta e apologista que chegou a ser cardeal, o outro é o fundador de uma instituição da Igreja. Contudo, observando-os com atenção, descobre-se uma grande sintonia espiritual e um projecto pastoral análogo. Menciono alguns exemplos.
Fotomontagem em que se vê São Josemaria Escrivá (esq.) e o Cardeal John Henry Newman (dta.).
Fotomontagem em que se vê São Josemaria Escrivá (esq.) e o Cardeal John Henry Newman (dta.).

Ambos são verdadeiros “profetas” da missão e do importante papel que os leigos são chamados a desempenhar na Igreja. Ambos sofreram devido a esta afirmação, uma vez que, quando a começaram a pregar, parecia uma novidade insustentável. Newman afirmava, por exemplo, que o 'sentir da fé' do povo de Deus devia ser considerado como 'lugar teológico', quer dizer, como uma fonte que se pode consultar para conhecer qual é o conteúdo autêntico da fé.

A Igreja, como depositária da revelação divina, não pode prescindir, na sua determinação, de uma parte importantíssima de si própria: o povo fiel; se o faz, além de perder uma fonte privilegiada, desemboca no clericalismo, uma redução daquilo que é efectivamente a Igreja, restringindo-a aos ministros ordenados e à hierarquia. São Josemaria por seu lado, também teve de sofrer incompreensões por afirmar taxativamente - muito antes do Vaticano II - que os leigos são chamados à plenitude da vida cristã, à santidade, que não são cristãos de segunda e têm uma vocação divina específica, por exemplo, a vocação matrimonial: quer dizer, um modo de abraçar e fazer a vontade de Deus na Igreja e no mundo. Ao 'sentir da fé' newmaniano, São Josemaria chamará, mais coloquialmente, o 'nariz católico' do povo de Deus.

Empenho e formação constantes
Ambos se aperceberam claramente de que pelo mero facto de uma pessoa ser leiga não se converte em porta-voz do Espírito Santo.
É necessária uma profunda formação e um empenho constante por ser coerente com a fé. Newman dedicou todo o seu esforço intelectual e pastoral a esse objectivo: a revista Rambler, a Universidade Católica de Dublin dirigida por ele, a escola do Oratório de Birmingham disso são exemplos eloquentes.

São Josemaria, por sua vez, além da sua riquíssima pregação e dos seus numerosos livros de espiritualidade, que tanto têm ajudado os leigos a encontrar Deus na sua vida quotidiana, fundou – por querer divino - uma instituição que tem como finalidade recordar o chamamento universal à santidade e fazê-la acessível: quer dizer, não só afirmar que devemos ser santos na vida normal, mas mostrar o como, prestando a ajuda adequada para conseguir alcançar esse objectivo. Por isso definia o Opus Dei como"uma grande catequese", onde se dá a formação necessária, particularmente dirigida a fomentar nas pessoas que a recebem a "unidade de vida", conceito que pretende reflectir a árdua, mas necessária, coerência entre aquilo em que se acredita e o que se vive; sem intromissões abusivas nem divórcios escandalosos.

O exemplo dos primeiros cristãos
Ambos tinham consciência de que aquilo que propunham não era, no fundo, uma novidade "é velho como o Evangelho e, como o Evangelho, novo" diria São Josemaria. Ambos tiveram, como fonte de inspiração, a vida dos primeiros cristãos, a quem é necessário recorrer para recuperar a integridade da fé, segundo Newman. Insistiam os dois na necessidade de alcançar uma profunda unidade entre fé e razão, cimentada no estudo das ciências, tanto profanas como eclesiásticas.

Assim, por exemplo, S. Josemaria exigia aos sacerdotes do Opus Dei que fossem peritos em algum saber profano – todos têm uma licenciatura, muitos um doutoramento civil -, ao mesmo tempo que bastantes leigos por sua vez cultivam as ciências teológicas segundo o seu nível, tendo muitos deles feito um doutoramento eclesiástico. Newman afirmou por sua vez: "Quero que os intelectuais leigos sejam religiosos, e que os eclesiásticos devotos sejam intelectuais".

Liberdade das consciências
Ambos foram profetas da 'liberdade das consciências' dentro da Igreja. Escrivá pregou incansavelmente sobre a liberdade e a autonomia dos leigos em assuntos temporais, indicando que não devia haver nenhuma ingerência eclesiástica nesses assuntos. Deviam, contudo, esforçar-se por ser coerentes com a sua fé e fiéis à sua consciência, evitando qualquer tipo de esquizofrenia oportunista que os desqualificasse moralmente. Newman insistiria no valor da consciência como lugar de encontro com Deus, sacrário do homem e motor de toda a conduta moral.

Podiam salientar-se muitos outros aspectos: necessidade de jejuar, piedade e doutrina no aprofundamento teológico; exercício prudente e responsável, face à Igreja, do trabalho teológico, e uma profunda percepção da Igreja como Mistério, como sacramento, que tendo um elemento humano, conduz à comunhão com o divino. De momento, chegam os aspectos apresentados para justificar a sintonia entre Newman e São Josemaria.".

Nota sobre o autor:
*O Pe. Arroyo Martínez é Doutor em Filosofia pela Universidade da Santa Cruz


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