São Josemaria
Textos de São Josemaria

O demónio mudo

Etiquetas: Defeitos, Evangelho, Sinceridade
Ao chegarem junto dos discípulos, viram uma grande multidão que os rodeava e uns escribas a disputarem com eles. Apenas, porém, aquela multidão O viu, ficou surpreendida e correu a saudá-Lo. E Ele perguntou-lhes: Que estais a discutir com eles? Respondeu-Lhe um da multidão: Mestre, trouxe-Te o meu filho, que tem um espírito mudo: onde quer que dele se apodera, lança-o por terra, e ele espuma e range os dentes e fica hirto. Disse aos Teus discípulos que o expulsassem, mas não puderam. Respondeu-lhes Ele e disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo! Trouxeram-Lho. Mal ele viu Jesus, logo o espírito o agitou com violência, até o fazer cair por terra, e começou a rebolar espumando. Perguntou Jesus ao pai: Há quanto tempo é que isto lhe acontece? Desde a infância – respondeu ele – e muitas vezes o tem atirado ao fogo e à água para o matar; mas, se podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. Disse-lhe Jesus: Se podes!...Tudo é possível a quem crê. Imediatamente o pai do pequeno gritou: Creio! Ajuda a minha pouca fé! Vendo Jesus que nova gente acorria, imperou ao espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, Eu te mando, sai desse pequeno e não tornes a entrar nele. E o espírito, gritando e contorcendo-o violentamente, saiu. O pequeno ficou como morto, tanto que muitos diziam: Morreu. Mas Jesus, pegando-lhe na mão, levantou-o, e ele pôs-se de pé. Quando entrou em casa, perguntaram-Lhe em particular os discípulos: Porque é que nós o não pudemos expulsar? Respondeu-lhes: Esta casta de Demónios com nada se pode expulsar, a não ser com oração e jejum (Mc 9, 14-29).

«Não devemos fugir de Deus quando descobrimos as nossas fraquezas, mas devemos combatê-las, precisamente porque Deus confia em nós.

Com é que conseguiremos superar estas coisas mesquinhas? Insisto neste ponto, porque ele se reveste de importância capital: com humildade e sinceridade na direcção espiritual e no Sacramento da Penitência. Ide aos que vos dirigem espiritualmente, com o coração aberto. Não o fecheis porque, se se mete o demónio mudo pelo meio, depois é difícil lança-lo fora.

Perdoai-me a insistência, mas julgo imprescindível que fique gravado a fogo nas vossas inteligências que a humildade e a sua consequência imediata a sinceridade, se ligam com os outros meios de luta e fundamentam a eficácia da vitória. Se a tentação de esconder alguma coisa se infiltra na alma, deita tudo a perder; se, pelo contrário, é vencida imediatamente, tudo corre bem, somos felizes e a vida caminha rectamente. Sejamos sempre selvaticamente sinceros, embora com modos prudentemente educados.

Quero dizer-vos com toda a clareza que me preocupa muito mais a soberba do que o coração e a carne. Sede humildes! Sempre que estiverdes convencidos de que tendes toda a razão, é porque não tendes nenhuma. Ide à direcção espiritual com a alma aberta. Não a fecheis, porque então intromete-se o demónio mudo e é muito difícil expulsá-lo.

Lembrai-vos do pobre endemoninhado que os discípulos não conseguiram libertar. Só o Senhor o pôde fazer com oração e jejum. Naquela altura o Mestre realizou três milagres. O primeiro foi fazê-lo ouvir, porque quando o demónio mudo nos domina, a alma fica surda; o segundo foi fazê-lo falar; e o terceiro foi expulsar o diabo.

Começai por contar o que não quereríeis que se soubesse. Abaixo o demónio mudo! De uma coisa de nada, dando-lhe voltas e mais voltas, faz-se uma grande bola como com a neve, e acaba-se por ficar fechado lá dentro. Porquê?... Abri a alma! Asseguro-vos a felicidade, que é fidelidade à vocação cristã, se fordes sinceros. A clareza e a simplicidade são disposições absolutamente indispensáveis. Abramos pois, de par em par a nossa alma, de modo que o sol de Deus possa entrar e com ele a caridade do Amor.

Para se afastar da sinceridade total nem sempre é preciso má intenção; às vezes, basta um erro de consciência. Há pessoas que formaram (isto é deformaram) de tal modo a consciência que o seu mutismo, a sua falta de simplicidade lhes parece bom; até pensam que é bom calar. Acontece que às vezes até receberam uma boa preparação e conhecem as coisas de Deus e talvez, por isso, se convençam de que é conveniente calar. Enganam-se, porém, porque a sinceridade é sempre necessária e não cabem desculpas, ainda que pareçam boas».
Amigos de Deus, nn.187-189