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Testemunhos

O melhor co-guionista de rádio

Júlio Vivián, apresentador e guionista de rádio, Uruguai

1 Janeiro 2010

Etiquetas: Alegria, Apostolado, Santidade, Unidade de vida
“Vale tudo”. Esta era a minha ideia aos 14 anos, quando comecei a trabalhar nos média. Tinha sentido essa vocação muito claramente desde muito miúdo. E também me tinha custado bastante entrar no “meio”; estava disposto, pois, a fazer o que fosse necessário para não desaparecer.
Isidro Cristiá, o dos concursos, foi quem me abriu as portas, e dele não me afastei até à sua morte. Depois coube-me a vez a mim de escrever guiões cómicos, apresentar programas de rádio, produzir e dirigir teatros radiofónicos, e ser gerente de rádio.
Para me avisar sobre qualquer tipo de lapso, Cristiá sempre começava por dizer: “Atenção!” – Atenção ao que dizes para o ar. – Atenção ao que escreves. Atenção às brincadeiras de mau gosto.
Aos 19 anos conheci o Opus Dei. Aos 20 pedi a admissão na Obra. Nessa altura quem começou a dizer-me “Atenção” foi Monsenhor. Escrivá. E não pense o que me está a ler que tive revelações ou êxtases místicos. Nada disso. Mas a verdade é que nestes 18 anos decorridos, é ele quem me tem ajudado. O que lhe terá custado! Eu explico, voltando ao princípio.
“Vale tudo”. Era preciso agradar aos artistas de comédia para quem escrevia. E o mais fácil era descambar para as anedotas picantes.
“Vale tudo”. Era preciso ter muita audiência. E o mais fácil era encontrar os temas e os convidados com sucesso, embora contassem factos que teriam feito corar qualquer um. Tinha também o álibi perfeito. Aquilo de que “somos gente grande, que sabe discernir”.
Até que um dia deparo com uma frase de São Josemaria que fazia referência ao que suja uma criança, também suja um adulto. Fiquei a dar voltas à pequena frase. Mas não chegava a concretizar.
E um dia li outra coisa sobre o que Fundador do Opus Dei chamava de apostolado da diversão.
E sobre isto do apostolado da diversão, houve um belo dia em que experimentei mudar. Guiões de maior qualidade. Os teatros radiofónicos não têm forçosamente de contar problemas amorosos dos protagonistas, nem os convidados têm de ser sempre escandalosos.
Animei-me. E não foi tão difícil assim. E a resposta não se fez esperar. Começaram a chegar telefonemas do público; todos invariavelmente elogiavam as mudanças. O denominador comum de todos era: “Óptimo, boas notícias”, ou “Óptimo, coisas do dia-a-dia na novela”.
Não exagero se disser que hoje em dia escrevo vários quilómetros de papel semanalmente. Também não exagero se disser que dou voltas e mais voltas para não ceder ao argumento do fácil. Mas como tenho um co-guionista, também asseguro que esses quilómetros se me tornaram fáceis de percorrer. Quando não sei que direcção tomar, leio umas linhas dos escritos de São Josemaria, e parece que os argumentos me saem sozinhos. Não estou a mentir. São inspiração para programas de rádio, para sketches e para todo o tipo de programas. Digo-o com a maior seriedade. Escrevo “mais branco do que o papel branco onde escrevo”, e a audiência agradece-o. Telefonam; mandam cartas - tenho vários dossiers com essas recordações -, falam-me na rua. Até tivemos um prémio internacional de teatro radiofónico, género que ainda vive e luta no Uruguai e no mundo.
Não sei se o leitor está preocupado com o Juízo Final e com a felicidade eterna. A mim: preocupa-me muito. E misturar a felicidade do Além com a daqui diverte-me e afinal é simples.
Tudo é questão de inspiração. Ou pelo menos: de encontrar um bom co-guionista.