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O saber ao serviço do homem

María Ángeles Vitoria

Etiquetas: Educação, Universidade, França
María Ángeles Vitoria, professora na Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)
María Ángeles Vitoria, professora na Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)
Conferência proferida durante o "Colóquio sobre Educação e educadores cristãos", organizado pelo Centro de Investigação do Instituto Católico, do Campus Ker Lann, em Rennes (França). O colóquio tinha como objectivo apresentar a contribuição da fé para a educação, destacando algumas figuras da história da Igreja.

S. Josemaria e a educação
O tema desta apresentação foi determinado pelo contexto do Colóquio. São Josemaria é considerado um contemplativo itinerante, o santo do quotidiano, sem posteriores especificações. A sua mensagem refere o valor cristão de qualquer actividade humana honesta. Daí que apresentar os seus ensinamentos sobre uma actividade específica, como a educação, exija alguns esclarecimentos.

A exposição compõe-se de três partes. Na primeira, procuro descrever em que sentido se pode falar de ensinamentos de S. Josemaria sobre a educação. Seguidamente, apresento uma chave para a leitura desses ensinamentos: considerá-los à luz da universalidade da vocação cristã, núcleo da mensagem transmitida por S. Josemaria, e a cuja difusão dedicou inteiramente a sua vida. Por último, dedico especial atenção ao modo como entendeu a missão educativa da Universidade, instituição que amou apaixonadamente.

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"Educar": algumas premissas
Parece-me oportuno distinguir, em primeiro lugar, dois modos de abordar o tema da educação: um, amplo e geral; outro, de carácter mais restrito. Educar, no sentido mais amplo, e de acordo com a acepção greco-socrática, significa levar o homem a ser “ele próprio”, quer dizer, ajudá-lo a alcançar a sua perfeição enquanto homem. São bem conhecidas as dificuldades insuperáveis que a visão grega do “si próprio” encontrou para a sua realização. Só na Revelação judaico-cristã o homem encontrou a resposta cabal para a sua grandeza-fragilidade, chegando a decifrar o enigma sobre si próprio que não conseguia resolver, ao perceber-se como contradição viva.

Quem indica o caminho e oferece os meios
O cristianismo colocou a perfeição do homem no viver em comunhão com Deus como seus filhos em Cristo. Ao mesmo tempo, não se limitou a indicar o caminho para conseguir essa felicidade suprema, mas ofereceu os meios para a conseguir. Com efeito, a graça ao operar a regeneração da natureza humana deteriorada pelo pecado, resgata a liberdade da escravidão em que se encontrava, libertando-a da dificuldade insuperável para escolher livremente a verdade sobre o bem, afirmado com o juízo da razão.
Sobre a base desta visão do homem, o cristianismo elaborou uma doutrina da educação que tem como fim a perfeição da pessoa humana como tal, em todas as suas dimensões, e que entende a acção educativa como colaboração com a graça e a liberdade do indivíduo para reconstruir a pessoa na sua verdade. Na pedagogia cristã, a acção educativa atinge o seu sentido mais pleno quando se configura como ajuda para que qualquer homem ou mulher aprenda a viver como filho de Deus, imitando, com as possibilidades e deficiências de cada um, o homem perfeito, que é Cristo.

S. Josemaria e o "método" educativo
Sob esta perspectiva, não há dúvida de que S. Josemaria foi um grande pedagogo, cujos ensinamentos se situam dentro deste aspecto geral da educação cristã. Se, pelo contrário, consideramos a educação de um modo mais restrito, quer dizer, nos seus aspectos metodológicos ou de técnica educativa, S. Josemaria não deu indicações especiais, pois deixou-as à decisão livre e responsável dos profissionais a quem competiam estas tarefas.

De forma diversa de outros insignes educadores cristãos dos últimos quatro séculos, como S. José de Calasanz (pioneiro da escola não estatal), S. João Baptista de La Salle (percursor das actuais escolas profissionais), S. João Bosco (formador dos jovens), Eugène Dévaud (conhecido pelo esforço por integrar alguns aspectos do movimento da Escola Nova com os princípios cristãos), ou Maria Montessori (promotora de um método dirigido especialmente às crianças na fase pré-escolar), não se pode atribuir a S. Josemaria, neste âmbito, qualquer especialização. Tudo isto não significa, por outro lado, que não exista em S. Josemaria um corpo de preceitos sobre a educação, que se reflecte nos centros educativos inspirados nos seus ensinamentos.

Este perfil educativo manifesta-se, entre outros aspectos, no empenho que põem os que aí trabalham em cultivar as virtudes humanas e em oferecer um ensino ou formação de qualidade. Distinguem-se também pelo modo como se procura fomentar o amor ao trabalho bem feito e o cuidado dos detalhes materiais. Nesses centros, a educação da liberdade e, consequentemente da responsabilidade pessoais, assume um lugar central. E, em todos eles, se reflecte o esforço para que em todas as relações domine um tom optimista e se crie um ambiente de confiança, convivência e amizade. Procura-se também que a identidade cristã e o desejo de serviço marquem todas as actividades que ali se realizam. Finalmente, a consideração teórica e operativa dos pais como primeiros e principais educadores dos filhos, é outra característica nitidamente presente em todas estas iniciativas.

A experiência sacerdotal sobre a educação
Considero oportuno completar estas premissas com algumas indicações sobre os lugares onde encontrar o pensamento de S. Josemaria sobre a educação. Em primeiro lugar deve-se dizer que, entre os seus escritos, não se encontram nem manuais nem tratados sobre a educação. Nos seus vastíssimos ensinamentos e actividade, não aparece uma teorização mais ou menos sistemática sobre o tema. O seu contributo neste campo – tal como noutros - brota naturalmente da sua actividade sacerdotal.

Daí que os seus escritos estejam sempre em estreita ligação com a sua experiência espiritual, com a sua acção apostólica e com as tarefas de governo da instituição que fundou. São, portanto, homilias, práticas, sermões, meditações, retiros espirituais, anotações para o governo, documentos dirigidos a melhorar a vida espiritual dos seus filhos, entrevistas concedidas a alguns jornalistas, discursos por ocasião de actos académicos ou de reconhecimentos honoríficos, etc. Escreve ao serviço daquilo que constituiu o substrato e a meta de toda a sua vida: a sua condição de sacerdote e o cumprimento da missão recebida a 2 Outubro de 1928. Os seus escritos surgem em conexão com o desenrolar da sua vida e da sua missão, e com o que a vida e essa missão iam exigindo.

Ao modo habitual da pregação, no caso do Fundador do Opus Dei, junta-se outro, que teve grande importância na sua actividade sacerdotal e espiritual: as reuniões de carácter familiar e informall (“tertúlias”), por vezes multitudinárias, em que surgiam temas muito diversos. Também estão muito presentes na sua acção educativa os meios mais diversos de comunicação oral pessoal: a conversa acompanhada de um conselho animador, a advertência, a indicação exacta ou a correcção; a prática da direcção espiritual, etc.

Aqueles, que tiveram a sorte de o conhecer, costumam também recordar com mais força, não é tanto o que disse sobre esses temas, mas o exemplo da sua própria vida pessoal, inteiramente convertida numa grandiosa, multiforme e constante actividade educadora; o que aparece, talvez com maior ênfase, é o facto de ter sido um educador excepcional, que consumiu toda a sua vida numa tarefa apaixonada de dar doutrina sem cessar, com o seu exemplo e com a sua palavra.

María Ángeles Vitoria é professora da Faculdade de Filosofia
da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, (Roma)