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Os primeiros passos do Opus Dei no México (1948-1949)
Victor Cano
Em 1948, São Josemaria Escrivá decidiu que a expansão internacional do Opus Dei, iniciada poucos anos antes, prosseguiria pela América. Com a ajuda de muitos amigos e cooperadores, instalou-se o primeiro centro do Opus Dei na América, na cidade do México. O trabalho iniciou-se com universitários, apareceu a primeira edição mexicana de “Caminho” e abriram-se novos horizontes apostólicos noutras cidades.
Introdução
Em 1948, São Josemaria Escrivá decidiu que a expansão internacional do Opus Dei, iniciada poucos anos antes, prosseguiria pela América. Antes de tomar uma resolução concreta nesse sentido, encarregou o Pe. Pedro Casciaro(1), um dos primeiros membros do Opus Dei, de realizar uma viagem de pesquisa por esse continente, para sondar as diferentes possibilidades que se ofereciam. Acompanhado por dois professores espanhóis, o Pe. Pedro realizou essa viagem em 1948. Como resultado das suas informações, São Josemaria decidiu começar ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no México.
Em fins de 1948, o Pe. Pedro Casciaro foi para o México com mais duas pessoas, aos quais se juntariam outras duas alguns meses mais tarde, para começar o trabalho apostólico estável do Opus Dei no país americano. O presente estudo abrange os acontecimentos que acabo de mencionar, e faculta-se um resumo do que aconteceu durante o primeiro ano da presença do Opus Dei no México, concretamente até 30 de Maio de 1949, em que se mudou o primeiro centro – que até agora se encontrava na rua de Londres 33 – para a nova sede da rua de Nápoles 70, ambas na Colónia Juárez, México, D.F. (...) As principais fontes primitivas que consultei são: as cartas do Fundador(2), as cartas de Pedro Casciaro(3) e o diário do centro da rua de Nápoles(4).
Primeira viagem ao México (1948)
Esta viagem, como já foi dito, respondia aos planos de expansão que São Josemaria tinha traçado. Efectivamente, desde 1946, o Opus Dei tinha começado a trabalhar fora de Espanha, concretamente em Portugal e Itália. Depois tinha sido a vez de Inglaterra (fins de 1946), Irlanda e França (1947). Mas era só o princípio.
Numa carta, escrita de Roma, em Fevereiro de 1948, dizia aos membros do Conselho Geral do Opus Dei: “Depois do meu regresso [a Espanha] faremos um estudo orgânico – frio – da expansão da Obra”(13). O Fundador tinha o propósito de ir a Madrid em meados de Março. Contudo, adoeceu – sofreu uma paralisia por causa do frio – e teve de alterar a viagem para princípios de Abril(14). Entretanto restabelecido da doença em Roma, São Josemaria sentia a urgência de não atrasar esses planos e animou Pedro Casciaro para se “preparar urgentemente para fazer uma longa viagem pela América”(15) com a qual teria de conseguir dois objectivos: 1º) visitar os bispos de várias dioceses que tinham manifestado o desejo que a Obra começasse nas suas dioceses e 2º) conhecer in situ as circunstâncias de cada lugar para preparar a implantação do Opus Dei nesses países. Tratava-se de percorrer boa parte dos Estados do continente americano, numa viagem de reconhecimento(16).
Em 13 de Abril de 1948, Pedro Casciaro – acompanhado por duas outras pessoas(17) – iniciou a viagem pela América. Foi um longo périplo que durou seis meses (de Abril a Setembro). De Madrid voaram para Nova Iorque. Depois Chicago, onde permaneceram várias semanas. A seguir viajaram por várias cidades do Canadá (Toronto, Otava, Montréal, e Quebeque) e finalmente dirigiram-se para Washington. Tiveram encontros com os bispos e visitaram várias universidades(19).
A 19 de Maio chegaram ao México e daí, a 10 de Agosto, voaram para Lima (Peru). Por último, visitaram o Chile e Argentina (Buenos Aires e Rosário). “Na maioria dos países – recordaria anos mais tarde Pedro – permanecemos de uma a três semanas, salvo no México, onde residimos mais de dois meses e ainda soube a pouco”(20). Efectivamente, a estadia no México foi para o Pe. Pedro uma verdadeira descoberta. De maneira eloquente relata as impressões adquiridas: (...) Ao seu irmão José Maria, escreve nesse mesmo dia: “Estamos contentíssimos no México”(22). No mês de Junho aumenta a sua admiração pelo que vai encontrando no país: “Foi um consolo enorme conhecer este país e esta gente”. Graças a Deus, temos já verdadeiros amigos”. “Aqui fazemos muita falta e dificilmente ficaremos melhor impressionados no Chile e na Argentina”(23).
Já desde a sua primeira viagem deu conta de que valia a pena começar quanto antes: “Padre – escrevia ao fundador em Julho de 1948 –: as coisas que lhe conto sobre as possibilidades de trabalho no México não são impressões vagas: temos tratado disto com bastantes pessoas: assim é só questão de preparar pessoas”(24).
Nestes meses, visitou duas vezes o arcebispo do México; os que o acompanhavam fizeram conferências sobre as suas respectivas especialidades profissionais na cidade do México, Morelia, Mérida e Puebla; e obtiveram o imprimatur para a “Folha Informativa” da causa de canonização de Isidoro Zorzano(28).
Fizeram também uma viagem a Mérida – de 9 a 14 de Junho –, onde visitaram o arcebispo de Yucatán, D. Fernando Ruiz Solórzano, e falaram com ele sobre uma possível edição de Caminho com prólogo seu(29). (...) Sucessivamente visitaram outras cidades.
A 10 de Agosto de 1948, despediram-se do México e partiram rumo à América do Sul(31). Em Setembro regressaram a Espanha e, na quinta de Molinoviejo (Segóvia) contaram as suas impressões ao fundador(32). Nessa ocasião mostraram a São Josemaria uma imagem de Nossa Senhora de Zapopan, padroeira de Guadalajara (Jalisco), que tinham trazido do México.
Com as informações recebidas, São Josemaria decidiu que os primeiros passos do Opus Dei na América seriam dados nos Estados Unidos e no México(33).
Segunda viagem ao México (1949)
A 17 de Dezembro de 1948, os que começaram o trabalho apostólico no México fora a Molinoviejo, onde São Josemaria estava a prega um retiro(37). "Começamos em Molinoviejo – recorda o Pe. Pedro Casciaro – com a bênção do Padre e uma imagem de Nossa Senhora do Rocio que nos deu. No dia seguinte embarcámos. A única coisa de valor material, na bagagem, era um sacrário, oferta de um velho amigo”. São Josemaria deu-lhes a bênção de despedida em Molinoviejo na presença de Casimiro Morcillo, então bispo auxiliar de Madrid(39).
O navio correio Marqués de Comillas, no qual embarcaram pertencia à Companhia Transatlântica Barcelona(40). Tinham pela frente trinta e um dias de viagem até chegar ao porto de Vera Cruz. Durante a travessia, como é natural, entraram em contacto com muitas pessoas e fizeram amigos que depois participaram no trabalho apostólico do Opus Dei no México. Alguns deles ajudaram na instalação do primeiro oratório da Obra na Cidade do México.
A bordo do Marqués de Comillas, Pedro Casciaro escrevia a João António Gallarraga – residente em Inglaterra –, afirmando-lhe que iam “a caminho do México para permanecer aí – segundo disse o Padre – por muitos anos”(45).
O primeiro centro do Opus Dei na América: rua de Londres, 33
Depois de numerosas escalas e várias ocorrências, fielmente registados no diário(46), o Marqués de Comillas entrou no porto de Vera Cruz terça-feira, dia 18 de Janeiro de 1949, muito cedo. Casciaro celebrou a missa no barco e dispuseram-se a passar pelos longos trâmites de serviços sanitários e de migração. Após comerem no Hotel Diligências, dirigiram-se para os quartos que Manuel Suárez lhes arranjara para passarem a noite(47). Manuel Suárez era um espanhol radicado no México, com o qual Pedro manteve contacto frequente nesses anos. Era proprietário do “Techo Eterno Eureka” ou “La Eureka”, empresa de construção, com obras em diversas zonas do país (México, D.F., Nuevo Léon, Sinaloa, Vera Cruz...).
Quinta-feira, 20 de Janeiro, o Pe. Pedro celebrou a missa na igreja Expiatório de São Filipe de Jesus, dos Missionários do Espírito Santo. Parte da manhã desse dia, dedicaram-no a rezar à Virgem de Guadalupe na sua basílica de Tepeyac. Recomendaram-lhe todo o trabalho apostólico no seu novo país.
No dia seguinte, visitaram Jacinto Martínez Pando, que os tinha alojado em sua casa durante o primeiro périplo pelo México e que lhes sugeriu arrendarem um seu apartamento, na rua de Londres, 33. Nesse mesmo dia decidiram alugar o nº 4 do segundo andar, e pela tarde mudaram as suas coisas para a nova casa(49).
A partir de então, o Pe. Casciaro celebraria a missa com frequência, na paróquia do Sagrado Coração que ficava perto; o pároco Mons. Vallejo Macouzet, viria a ser seu confessor e amigo íntimo(50).
A 28 de Janeiro visitou D. Luís Maria Martínez(51) – arcebispo do México desde 1937, falecido em 1956 com fama de santidade –, a quem tinham tentado cumprimentar antes, sem conseguir vê-lo até esse dia. Nesta primeira entrevista, o arcebispo manifestou a sua alegria pela chegada de pessoas do Opus Dei à sua arquidiocese e ofereceu-lhes ajuda para o que precisassem. Além disso, prometeu-lhes uma visita e a celebração da primeira missa na residência, quando estivesse inatalada.
No dia seguinte, 29 de Janeiro, foi à Cúria Arqiepiscopal muito cedo para obter as licenças ministeriais e as autorizações do arcebispo para ter o primeiro centro e o primeiro sacrário do México e da América. No andar da rua de Londres, 33 estiveram pouco tempo: até 30 de Maio de 1949. Contudo, em princípio, não sabiam quanto tempo viveriam aí. Por isso puseram grande empenho na instalação e especialmente no oratório. Quando estudava arquitectura em Madrid, o Pe. Casciaro cultivou a sensibilidade e gosto pela arte que seria um dos traços mais característicos da sua personalidade, e que o ajudaria a pôr em prática com esmero a cuidadosa instalação dos centros e oratórios da Obra que tinha aprendido com São Josemaria. Com efeito, entre as recordações mais marcantes que conservava da sua convivência com o fundador do Opus Dei, estava a decoração do oratório da Residência de Ferraz, em Madrid(52). Poucos dias depois de ter chegado à sua nova pátria, a 23 de Janeiro, escreveu a primeira carta a São Josemaria de terras mexicanas, com o entusiasmo de lhe comunicar que já tinham casa, e para lhe explicar os detalhes das suas divisões. O imóvel constava de três salas grandes, uma cozinha e um quarto de arrumos. O oratório ficaria instalado numa das três primeiras. Mobilando os outros como quartos de dormir com sofás cama, o Pe. Pedro assegurava com optimismo que “muito comodamente” poderiam viver até sete pessoas.
No dia 1 de Fevereiro já dispunham de muitos elementos do novo oratório e continuavam a procurar outras coisas que faltavam(54).Temos o frontal e os laterais da mesa do altar, do século XVIII, de cedro, que é uma maravilha e um pequeno retábulo em forma de relicário com a Virgem de Guadalupe, também antigo. Deram-nos um cálice muito bonito”(55).
Não foi simples a operação, mas no fim conseguiram ter o oratório instalado. Em fins de Fevereiro Pedro Casciaro escrevia a São Josemaria: “Parece-me que o Senhor estará contente porque, dentro das possibilidades actuais, tudo vai ficar com muita dignidade e pusemos muito Amor”(56). Como tinha prometido, D. Luís Maria Martínez foi ao centro na terça-feira, 9 de Março, muito pontual, acompanhado de um seminarista, e celebrou a primeira missa – memória de Santa Joana Francisca de Chantal – no oratório às 8 horas e 30 minutos da manhã.(57). O Pe. Casciaro e os outros não cabiam em si de contentes.
Os começos do apostolado com universitários
A partir desse 9 de Março de 1949, com o Santíssimo em casa, O Pe. Pedro e os que com ele viviam intensificaram a convivência com estudantes universitários com o objectivo claro de iniciar os meios de formação espiritual específicos do Opus Dei dirigidos a estudantes: as aulas de formação ou círculos, as meditações aos sábados com a recitação ou canto da Salve Rainha, as recolecções, as visitas aos pobres e a catequese. São Josemaria tinha-lhes recomendado fortemente – e ele mesmo sabia-o por experiência – a importância que estes meios de formação tinham para o desenvolvimento do trabalho apostólico do Opus Dei, e por isso uma das principais preocupações ao chegar ao México foi começá-los quanto antes.
Em primeiro lugar, Pedro Casciaro tinha pressa de começar as aulas de formação ou círculos para estudantes universitários. Recordava bem como as que o fundador do Opus Dei dirigia: tinham lugar aos sábados. Anos mais tarde, relembrava com emoção: “Guardo uma recordação vivíssima, indelével, daqueles Círculos; das palavras do Padre; dos seus exemplos, tão gráficos e vivos [...] ensinava-nos a amar a Deus a animava-nos a ter uma profunda vida cristã”(59). No princípio de Fevereiro escrevia a São Josemaria: “Parece-me que durante este mês podemos começar um grupo de círculos”(60). Contudo, não foi fácil cumprir esse objectivo porque um mês mais tarde ainda não tinham começado, ainda que tivessem alguns rapazes dispostos. A partir do dia 9, mudou a situação, que Pedro Casciaro atribuía precisamente à presença do Senhor no sacrário, lembrando talvez uma experiência que o próprio São Josemaria tinha tido na DYA, em Madrid(62).
No último sábado de Março começou a viver-se o costume – que tinham aprendido de São Josemaria – de cantar a Salve Regina, depois da bênção com o Santíssimo, no oratório(73). A catequese nos bairros pobres, que nunca deixa de se organizar nos centros do Opus Dei frequentados por jovens, começou na primeira quinzena de Abril. Costumavam ir alguns domingos e o Pe. Casciaro celebrava a missa na paróquia local(74).
Tanto na viagem anterior (de 1948) como nos primeiros meses de 1949, o Pe. Pedro Casciaro tinha pregado várias meditações, mas na Quinta-feira Santa, 14 de Abril de 1949, pôde celebrar-se pela primeira vez um dia de recolecção no oratório de Londres, 33. A casa foi pequena e Casciaro sabia que dava alegria a São Josemaria quando lhe escrevesse a comunicá-lo: “sentimos que por agora os lugares têm de ser limitadíssimos, porque o oratório é pequeno, mas já há várias pessoas a procurar, com muito interesse uma casa maior.”(76). Não tinham passado três meses desde a sua chegada e já estavam a procurar uma sede mais espaçosa.
Os primeiros amigos e cooperadores
Pedro Casciaro tinha aprendido com São Josemaria a pedir ajuda económica para as necessidades da Obra. E desde 1936 acompanhou-o frequentemente a fazer visitas a cooperadores e amigos(77). Numa carta escrita a 18 de Abril de 1948, de Madrid, São Josemaria dizia aos que iam de viagem para a América: “Não tenham vergonha de pedir e aceitar esmolas, para o nosso instituto, por pequenas que sejam”(78). Procurando colaboradores para os começos do trabalho na América, o Pe. Pedro fez muitos contactos e verdadeiras amizades.
Na carta de Março de 1948, São Josemaria nomeou Pedro Casciaro conselheiro para todo o continente, para poder admitir sócios supranumerários. Efectivamente, há pouco tempo, a Santa Sé tinha aprovado que no Opus Dei pudessem ser admitidos, como supranumerários, pessoas casadas. Por isso, ao chegar ao México na primeira viagem, uma das ocupações principais de Pedro Casciaro tinha sido visitar muitas pessoas para lhes dar a conhecer o Opus Dei e preparar assim o trabalho estável nesse país. Quando voltou ao México, para ficar, em Janeiro de 1949, tinha mais de cem amigos desejosos de colaborar desde o princípio na implantação da Obra. Em representação deles, o Pe. Pedro convidou três casais para assistirem à sua primeira missa no oratório da rua de Londres, 33, a 10 de Março de 1949, um dia depois daquele em que Mons. Luís Martínez o benzeu e celebrou missa.
Primeira edição mexicana de Caminho
Um dos projectos que ocuparam mais a cabeça e o tempo do Pe. Casciaro, no princípio do trabalho no México, foi a primeira edição mexicana de Caminho, o livro mais conhecido do fundador do Opus Dei. Era lógico esse seu interesse. Tinha visto nascer Caminho durante meses da mais íntima convivência com o fundador, em Burgos. Tinha participado também na primeira edição espanhola de Caminho (1939)(83). E por fim, tinha sido testemunha do grande bem que o livro fazia a todos os que o liam: tinha sido um instrumento eficaz para difundir a mensagem do Opus Dei nesses dez anos que iam de 1939 a 1949.
Em Abril tinha decidido imprimir quatro mil exemplares88, com um custo total de quatro mil pesos. Para suportar os gastos contavam com um empréstimo de três mil e um donativo de mil pesos89. A 28 de Abril estiveram com o arcebispo de Yucatán, que tinha ficado encantado com a leitura do livro e estava a escrever o prólogo: “quer à Obra de verdade e está disposto a colaborar com todo o entusiasmo”, lê-se no diário do centro. Também tinha anunciado que ele se encarregaria da edição em Mérida.
Por essa altura, também o arcebispo do México, D. Luís Maria Martínez, recebeu um exemplar de Caminho directamente das mãos do autor. Com efeito, numa visita que o prelado fez a Roma no princípio de Maio de 1949, São Josemaria convidou-o a almoçar e ofereceu-lhe um exemplar91. (...) No fim tiraram-se três mil exemplares(94).
Por fim, a 18 de Novembro, Pedro Casciaro escrevia contente a São Josemaria para lhe anunciar que já tinha nas suas mãos o primeiro exemplar da primeira edição mexicana de Caminho e que lho enviaria nesse dia ou no seguinte, de avião(99).
O preço de venda era de sete pesos mexicanos e, dos três mil exemplares, quinhentos ou mil iriam ser vendidos directamente100. Em Abril de 1950 já se tinham distribuído mais de quinhentos desses exemplares.
As primeiras viagens de expansão apostólica
Mal tinha começado o trabalho apostólico com universitários na Cidade do México, e já havia planos de o propagar pelo resto do país. Durante a primeira viagem tinham-se estabelecido alguns contactos nas cidades de Mérida, Guadalajara, Morelia, Zamora e Puebla. Somente sobrou uma cidade que tinham desejado ir: Monterrey (Nuevo León), onde não puderam ir por falta de tempo102. Mas Monterrey oferecia muitas possibilidades apostólicas. Por isso, pouco depois de regressar ao México, em Janeiro de 1949, o Pe. Casciaro fez planos com o Pe. José Luís Músquiz, para organizar um curso de verão em Monterrey, ao qual estudantes mexicanos e norte-americanos puderam assistir(103).
Em Abril de 1949 surgiu a possibilidade de fazer uma viagem a essa cidade do norte e o Pe. Pedro aproveitou imediatamente a ocasião. O motivo foi que o Eng. Roberto Avendaño, director em Monterrey de “La Eureka” – a empresa de D. Manuel Suárez – tinha feito amizade com o Pe. Pedro e convidou-o a visitar a cidade a 18 de Abril de 1949. No dia anterior, o Pe. Pedro escrevia a São Josemaria: “Vou contente a Monterrey porque ali há um bom ambiente universitário e técnico (é como a Barcelona do México)”(105).
Um mês mais tarde, foi a Culiacán. Em 1949 Culiacán era uma cidade muito pequena. A nenhum dos que chegaram ao México se lhes tinha passado pela cabeça a possibilidade de iniciar em poucos anos o trabalho apostólico nesse lugar. Deviam antes começar noutras cidades mais importantes: Guadalajara, Monterrey, Puebla, Mérida, Morelia...
Ainda que em fins de 1950 tudo apontasse para que Monterrey fosse a segunda cidade do México com um centro do Opus Dei, as circunstâncias levaram o trabalho da Obra, em primeiro lugar, a Culiacán. Monterrey teve de esperar mais dois anos.
Logo depois da viagem a Culiacán, a 30 de Maio, pela tarde mudaram-se para a nova casa da rua de Nápoles, 70. Nesse mesmo dia, em Roma, São Josemaria escrevia uma carta aos membros da Obra no México em que lhes dizia: “Queridíssimos: Com muita alegria lemos as vossas cartas. Ainda fico aqui um pouco mais de tempo. Encomendai as coisas que agora me preocupam. Eu lembro-me sempre de vós. Dizei à Ssª. Virgem de Guadalupe que me aumente o amor a seu Filho e que abençoe e atenda os meus pedidos”(111).
O Pe. Casciaro possuía uma grande capacidade de observação e, com o passar do tempo, ficou admirado com as características especiais que descobria no seu novo país. No final de 1949, em vésperas de Natal, fazia ao fundador um resumo das suas impressões sobre o ano que passara, ao mesmo tempo que lhe perguntava quando viria ao México para conhecer “um país e uma gente que merece a pena”113. Acabava de passar vinte dias em La Gavia, uma antiga herdade mexicana onde tinha dedicado muito tempo ao trabalho pastoral com gente do campo, dos arredores. Tinham-no impressionado profundamente as virtudes cristãs dessa gente: a sua grande fé, a sua humildade autêntica, a sua fortaleza e confiança na Providência divina...(114).
Percebeu que o conhecimento da idiossincrasia de um país era essencial para lançar as raízes do trabalho apostólico. Algo que o fundador já sabia, mas que nesses momentos da primeira expansão internacional do Opus Dei constituía uma informação de experiência de grande interesse. “Neste ano e meio de trabalho – escrevia a São Josemaria em Junho de 1950 –o mais importante quase é o conhecimento do que são estes países”(115). Referia-se aos países da América, onde os membros da Obra estavam “lavrando” as novas terras, com muitas possibilidades apostólicas, e que ofereciam horizontes para o trabalho do Opus Dei em todo o mundo.
Pedro Casciaro sempre se sentiu muito atraído pelo espírito universal do Opus Dei, que São Josemaria lhe tinha incutido nas suas conversas em Madrid, em Burgos e em tantos outros lugares. Preocupou-se que os primeiros mexicanos do Opus Dei participassem desse aspecto essencial da Obra. No fim de Junho de 1950, alegrava-se com as notícias da expansão do Opus Dei noutros países, que acabava de receber e escrevia a Odón Moles: “os pequenos encarregam-se da universalidade da família e vão valorizando e amando o que só conhecem pelas notícias”116. Isto não entrava em conflito com o amor à sua pátria adoptiva: desde o princípio tinha-se feito mexicano de coração, e esse carinho foi crescendo”(117).
A 6 de Março de 1950, um ano e poucos meses depois da chegada ao México, teve lugar um facto muito importante da história do Opus Dei neste país: chegaram as primeiras mulheres do Obra. O Opus Dei estava “completo”, por fim, no México, se se pode falar assim, e começava uma nova etapa do seu desenvolvimento em terra mexicana.
Victor Cano é médico cirurgião pela Universidade Nacional Autónoma do México (1973); Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra (1991). Foi professor de Teologia Fundamental e História da Teologia na Universidade Pan-americana. Entre as suas publicações, destaca-se um livro sobre história do México.
Notas
1. Pelo papel tão importante que representou nesta história, a versão completa do artigo inclui uma breve nota biográfica do Pe. Casciaro (nota do editor de www.josemariaescriva.info). Pareceu conveniente limitar o estudo a um período de tempo relativamente curto, e baseá-lo em documentação contemporânea, principalmente cartas e diários. Até agora, o que se tem publicado sobre o tema abarca períodos históricos muito amplos e está baseado principalmente em recordações de testemunhas presenciais. Cfr. Pedro Casciaro, Soñad y os quedareis cortos, Madrid, Rialp, 2002, entre outros.
2. Li 34 cartas de São Josemaria (Arquivo Geral da Prelatura, em primeiro lugar AGP, Sec. A, Leg. 260, Carp.2). Como todas têm a mesma referência de arquivo, omitirei a partir de agora para simplificar as notas.
3. As cartas do Pe. Pedro Casciaro, desde Maio de 1948 a Junho de 1950, são 169 no total (AGP, Sec. N, Série 2 [Cartas], Leg.1367-1368). Os destinatários são: São Josemaria (43), Odón Moles (36), José Luis Músquiz (32), Álvaro del Portillo (8), José Maria Hernández de Garnica (6), José Maria González Barredo (5) e outros (41). Também aqui evitarei repetir a referência ao arquivo, que é sempre a mesma.
4. São Josemaria quis que em cada centro do Opus Dei se escrevesse um diário. No caderno anotam-se os acontecimentos diários, num estilo simples e familiar. O primeiro centro do México esteve na rua de Londres, 33, e sucessivamente nas ruas de Nápoles 70 e Nápoles, 66-68. Citarei o diário de forma abreviada. Por exemplo: Diário, 21 de Janeiro de 1949. Revi os nove primeiros cadernos desse diário (de 18 de Dezembro de 1948 a 29 de Abril de 1950) e metade – até 30 de Junho – do décimo (9 de Maio de 1950 a 11 de Setembro de 1950) (AGP, Sec. N, Serie 3 [Diários], Leg. 372-373).
13. Carta de São Josemaria ao Conselho Geral, 4 de Fevereiro de 1948, citada por Andrés Vázquez de Prada, El Fundador do Opus Dei, Madrid, Rialp, 1997-2003, vol.III, p.110.
14. A 22 de Março mandou um telegrama a Pedro Casciaro (rua de Diego León 12, Madrid) no qual lhe anunciava: “Definitivamente chegarei dia 2 de Abril. Mariano”.
15. Pedro Casciaro, op.cit., p.200.
16. Era o que São Josemaria chamava fazer “a pré-história” do Opus Dei num país. Umas palavras suas explicam bem o que entendia por essa “pré-história”: “Antes de ir, costumamos estudar sempre atentamente as circunstâncias da nação: as suas características peculiares, as dificuldades que se podem encontrar, a forma mais segura de começar o trabalho, que obra corporativa deverá fazer-se primeiro, com que meios económicos poderemos contar, com que pessoas desse lugar devemos inicialmente relacionarmos, etc.” citado em Andrés Vázquez de Prada, op.cit., vol.III, p. 318.
17. Tratava-se de Ignacio de la Concha Martínez, catedrático de História do Direito da Universidade de Valência, e de José Vila Selma, secretário do Instituto de Hispanismo (Cartas de Pedro Casciaro a José Maria González Barredo, 5 de Maio de 1948 e a R.P. Hernán Benítez, 17 de Junho de 1948).
19. Diário da primeira viagem à América (13.IV-1948 a 5-VII-1948), AGP, Serie N, 1, Leg.347, Carp. 1, Exp. 684, Doc. 1.
20. Pedro Casciaro, op.cit., p.201.
22.Carta de Pedro Casciaro a José Maria Casciaro, 28 de Maio de 1948.
23 Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 8 de Junho de 1948. Nesta carta conta que fizeram uma romaria ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. Sobre a romaria de Maio como costume da Obra começado por São Josemaria, ver Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I. p. 547.
24. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 18 de Julho de 1948.
28. Isidoro Zorzano (1902-1943) foi um dos primeiros membros do Opus Dei. Faleceu a 15 de Julho de 1943 em odor de santidade (cf. José Miguel Pêro-Sanz,Isidoro Zorzano Lerdesma, Madrid, Palavra, 1996). A sua “Folha Informativa” foi um instrumento muito útil para dar a conhecer a Obra.
29. Caminho, o livro de São Josemaria mais difundido, foi editado em Valência em 1939. Cf. Josemaria Escrivá, Caminho,edição crítico-histórica, preparada por Pedro Rodríguez, Madrid, Rialp, 2002. Vid. apartado nº 8.
31. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 4 de Agosto de 1948.
32. Relato de Pedro Casciaro, AGP, Sec. P01 1979, p. 423.
33. Pedro Casciaro, op. cit., p. 201.
37. Relato de Pedro Casciaro, AGP, Sec, P01 1979, p. 424. Na segunda viagem acompanharam o Pe. Pedro dois jovens profissionais: Ignacio de la Concha – que tinha ido também na primeira viagem –, e José Grinda, engenheiro.
39. Pedro Casciaro, op. cit., p. 202.
40. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 22 de Dezembro de 1948.
45. Carta de Pedro Casciaro a Juan António Galagarra, 23 de Dezembro de 1948.
46. Para a viagem no Marqués de Comillas, cf. Diário, 18 de Dezembro de 1948 a 18 de Janeiro de 1949.
47. Diário, dias 18 a 21 de Janeiro de 1949.
49. Trata-se de uma casa de três andares, que ainda existe, situada na Colónia Juárez, entre as ruas de Nápoles e da Dinamarca, a poucos metros da Praça de Washington.
50. Em Julho de 1949, São Josemaria anuncia pela primeira vez o envio de outro sacerdote do Opus Dei para o México: “a ver se pode ser em princípios de cinquenta”, diz-lhes (Carta de São Josemaria aos membros do Opus Dei no México, 6 de Julho de 1949). Até o princípio de 1951 não se começa a concretizar a mudança de D. Emílio Palafox: Chegaria a 17 de Agosto de 1951, procedente de Madrid.
51. D. Luis Maria Martínez nasceu na Hacienta Molinos de Caballero (Michoacán), a 9 de Junho de 1881. O P. Pedro Fernández Rodriguez O.P., Biografia de um homem providencial. Mons, Luis Maria Martínez, México D.F., Seminário Conciliar do México, 2003.
52. Cf. Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I, P. 544.
54. Poucos dias mais tarde escrevia a São Josemaria: “Temos bastante gente mobilizada para conseguir tudo o necessário para o oratório” (Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 5 de Fevereiro, 1949).
55. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 1 de Fevereiro de 1949.
56. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 21 de Fevereiro de 1949.
57. Diário, 9 de Março de 1949.
59 Pedro Casciaro, op. cit., p. 31.
60. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 5 de Fevereiro de 1949.
62. Cf. Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I, p.546.
73. Diário, 26 de Março de 1949.
74. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 11 de Abril de 1949.
76. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 17 de Abril de 1949.
77. Pedro Casciaro, op. cit., p. 61-63.
78. Refere-se ao Opus Dei, que tinha sido aprovado por Pio XII como instituto secular com o Decretum laudis, que levava por título Primum Institutam, do 24 de Fevereiro de 1947. Cf. Federico M. Requena – Javier Sesé, Fuentes para la historia del Opus Dei, Barcelona, Ariel, 2002.
83. Para conhecer esta participação, ver “Casciaro Ramírez, Pedro” no índice de nomes de Josemaria Escrivá, Caminho, edição crítico-histórica, preparada por Pedro Rodríguez, 3ª ed., Madrid, Rialp, 2004, pp.61-148.
88. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 11 de Abril de 1949.
89. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles e a Francisco Botella, 27 de Abril de 1949.
91. A dedicatória é a seguinte: “A Sua Excelência Reverendíssima, D. Luis Maria Martínez, com veneração, carinho e agradecimento. Roma, 8 – Maio – 1949. Josemaria Escrivá de B”. O exemplar conserva-se actualmente numa vitrina da Sede da Comissão Regional do Opus Dei no México (...).
94. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 27 de Julho de 1949. Um mês mais tarde consideram a possibilidade de fazer outra edição de Caminho, de dois mil exemplares, em papel Bíblia e encadernado em pele flexível, tamanho de bolso (Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 27 de Agosto de 1949). Essa edição não se chegou a fazer.
99. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 18 de Novembro de 1949. Na última página da edição aparece o seguinte texto: “Este livro acabou de se imprimir na Impressora Insurgentes, S. de R.L., dia 2 de Outubro, Festa dos Santos Anjos da Guarda, do Ano do Senhor MCMIL” E logo segue o Nihil obstat e o Imprimatur do Arcebispo do México. A primeira edição mexicana de Caminho segue a quinta edição realizada em Espanha, em 1948. Cf. Josemaria Escrivá, Caminho, op. cit., p. 1047.
100. A 3 de Dezembro, por exemplo, Gonzalo Ortiz de Zárate encarregou-se de preparar o envio dos cento e cinquenta exemplares de Caminho que pediu o Arcebispo de Yucatán para os seus seminaristas (Diário, 3 de Dezembro de 1949). Pouco depois, o Pe. Pedro escreve a São Josemaria da herdade da Gavia comentando este envio (carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 8 de Dezembro de 1949). O Pe. Pedro escreveu também aos outros membros do Opus Dei que se encontravam noutros países da América para saber se necessitavam de exemplares.
102. Já desde a primeira viagem, em 1948, O Pe. Pedro Casciaro e os que o acompanhavam, pensavam ir a Monterrey dar conferências (Carta de Pedro Casciaro a José Maria González Barredo, 7 de Junho de 1948). Por fim, não puderam fazer a viagem programada a essa cidade (Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 4 de Agosto de 1948).
103. Cartas de Pedro Casciaro a José Luis Músquiz, 6 de Abril de 1949 e 12 de Abril de 1949.
105. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 17 de Abril de 1949. O Pe. Pedro alude à fama de cidade industrial e dinâmica que Barcelona é em Espanha.
111. Carta de São Josemaria aos fiéis do OpusDei no México, 30 de Maio de 1949.
113. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 23 de Dezembro de 1949.
114. Carta de Pedro Casciaro a José Luis Músquiz, 23 de Dezembro de 1949, em que diz que os “indiozinhos” “são estupendos” e comenta que, especialmente as mulheres da Obra, poderão fazer muito trabalho entre eles.
115. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 12 de Junho de 1950.
116. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 23 de Junho de 1950.
117. Depois de um mês de estar no México, escrevia a Álvaro del Portillo, cuja ascendência mexicana por parte da mãe remontava à época do vice-reinado: “Pode estar orgulhoso da sua ascendência mexicana: esta gente faz-se amar e de boa vontade se perdoam os seus defeitos observando as suas virtudes” (Carta de Pedro Casciaro a Álvaro del Portillo, 5 de Fevereiro de 1949).
O estudo completo pode ler-se no Vol. 1 (2007) da Revista do Instituto Histórico de São Josemaria, Studia et Documenta

Introdução
Em 1948, São Josemaria Escrivá decidiu que a expansão internacional do Opus Dei, iniciada poucos anos antes, prosseguiria pela América. Antes de tomar uma resolução concreta nesse sentido, encarregou o Pe. Pedro Casciaro(1), um dos primeiros membros do Opus Dei, de realizar uma viagem de pesquisa por esse continente, para sondar as diferentes possibilidades que se ofereciam. Acompanhado por dois professores espanhóis, o Pe. Pedro realizou essa viagem em 1948. Como resultado das suas informações, São Josemaria decidiu começar ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no México.
Em fins de 1948, o Pe. Pedro Casciaro foi para o México com mais duas pessoas, aos quais se juntariam outras duas alguns meses mais tarde, para começar o trabalho apostólico estável do Opus Dei no país americano. O presente estudo abrange os acontecimentos que acabo de mencionar, e faculta-se um resumo do que aconteceu durante o primeiro ano da presença do Opus Dei no México, concretamente até 30 de Maio de 1949, em que se mudou o primeiro centro – que até agora se encontrava na rua de Londres 33 – para a nova sede da rua de Nápoles 70, ambas na Colónia Juárez, México, D.F. (...) As principais fontes primitivas que consultei são: as cartas do Fundador(2), as cartas de Pedro Casciaro(3) e o diário do centro da rua de Nápoles(4).
Primeira viagem ao México (1948)
Esta viagem, como já foi dito, respondia aos planos de expansão que São Josemaria tinha traçado. Efectivamente, desde 1946, o Opus Dei tinha começado a trabalhar fora de Espanha, concretamente em Portugal e Itália. Depois tinha sido a vez de Inglaterra (fins de 1946), Irlanda e França (1947). Mas era só o princípio.
Numa carta, escrita de Roma, em Fevereiro de 1948, dizia aos membros do Conselho Geral do Opus Dei: “Depois do meu regresso [a Espanha] faremos um estudo orgânico – frio – da expansão da Obra”(13). O Fundador tinha o propósito de ir a Madrid em meados de Março. Contudo, adoeceu – sofreu uma paralisia por causa do frio – e teve de alterar a viagem para princípios de Abril(14). Entretanto restabelecido da doença em Roma, São Josemaria sentia a urgência de não atrasar esses planos e animou Pedro Casciaro para se “preparar urgentemente para fazer uma longa viagem pela América”(15) com a qual teria de conseguir dois objectivos: 1º) visitar os bispos de várias dioceses que tinham manifestado o desejo que a Obra começasse nas suas dioceses e 2º) conhecer in situ as circunstâncias de cada lugar para preparar a implantação do Opus Dei nesses países. Tratava-se de percorrer boa parte dos Estados do continente americano, numa viagem de reconhecimento(16).
Em 13 de Abril de 1948, Pedro Casciaro – acompanhado por duas outras pessoas(17) – iniciou a viagem pela América. Foi um longo périplo que durou seis meses (de Abril a Setembro). De Madrid voaram para Nova Iorque. Depois Chicago, onde permaneceram várias semanas. A seguir viajaram por várias cidades do Canadá (Toronto, Otava, Montréal, e Quebeque) e finalmente dirigiram-se para Washington. Tiveram encontros com os bispos e visitaram várias universidades(19).
A 19 de Maio chegaram ao México e daí, a 10 de Agosto, voaram para Lima (Peru). Por último, visitaram o Chile e Argentina (Buenos Aires e Rosário). “Na maioria dos países – recordaria anos mais tarde Pedro – permanecemos de uma a três semanas, salvo no México, onde residimos mais de dois meses e ainda soube a pouco”(20). Efectivamente, a estadia no México foi para o Pe. Pedro uma verdadeira descoberta. De maneira eloquente relata as impressões adquiridas: (...) Ao seu irmão José Maria, escreve nesse mesmo dia: “Estamos contentíssimos no México”(22). No mês de Junho aumenta a sua admiração pelo que vai encontrando no país: “Foi um consolo enorme conhecer este país e esta gente”. Graças a Deus, temos já verdadeiros amigos”. “Aqui fazemos muita falta e dificilmente ficaremos melhor impressionados no Chile e na Argentina”(23).
Já desde a sua primeira viagem deu conta de que valia a pena começar quanto antes: “Padre – escrevia ao fundador em Julho de 1948 –: as coisas que lhe conto sobre as possibilidades de trabalho no México não são impressões vagas: temos tratado disto com bastantes pessoas: assim é só questão de preparar pessoas”(24).
Nestes meses, visitou duas vezes o arcebispo do México; os que o acompanhavam fizeram conferências sobre as suas respectivas especialidades profissionais na cidade do México, Morelia, Mérida e Puebla; e obtiveram o imprimatur para a “Folha Informativa” da causa de canonização de Isidoro Zorzano(28).

Fizeram também uma viagem a Mérida – de 9 a 14 de Junho –, onde visitaram o arcebispo de Yucatán, D. Fernando Ruiz Solórzano, e falaram com ele sobre uma possível edição de Caminho com prólogo seu(29). (...) Sucessivamente visitaram outras cidades.
A 10 de Agosto de 1948, despediram-se do México e partiram rumo à América do Sul(31). Em Setembro regressaram a Espanha e, na quinta de Molinoviejo (Segóvia) contaram as suas impressões ao fundador(32). Nessa ocasião mostraram a São Josemaria uma imagem de Nossa Senhora de Zapopan, padroeira de Guadalajara (Jalisco), que tinham trazido do México.
Com as informações recebidas, São Josemaria decidiu que os primeiros passos do Opus Dei na América seriam dados nos Estados Unidos e no México(33).
Segunda viagem ao México (1949)
A 17 de Dezembro de 1948, os que começaram o trabalho apostólico no México fora a Molinoviejo, onde São Josemaria estava a prega um retiro(37). "Começamos em Molinoviejo – recorda o Pe. Pedro Casciaro – com a bênção do Padre e uma imagem de Nossa Senhora do Rocio que nos deu. No dia seguinte embarcámos. A única coisa de valor material, na bagagem, era um sacrário, oferta de um velho amigo”. São Josemaria deu-lhes a bênção de despedida em Molinoviejo na presença de Casimiro Morcillo, então bispo auxiliar de Madrid(39).
O navio correio Marqués de Comillas, no qual embarcaram pertencia à Companhia Transatlântica Barcelona(40). Tinham pela frente trinta e um dias de viagem até chegar ao porto de Vera Cruz. Durante a travessia, como é natural, entraram em contacto com muitas pessoas e fizeram amigos que depois participaram no trabalho apostólico do Opus Dei no México. Alguns deles ajudaram na instalação do primeiro oratório da Obra na Cidade do México.
A bordo do Marqués de Comillas, Pedro Casciaro escrevia a João António Gallarraga – residente em Inglaterra –, afirmando-lhe que iam “a caminho do México para permanecer aí – segundo disse o Padre – por muitos anos”(45).
O primeiro centro do Opus Dei na América: rua de Londres, 33
Depois de numerosas escalas e várias ocorrências, fielmente registados no diário(46), o Marqués de Comillas entrou no porto de Vera Cruz terça-feira, dia 18 de Janeiro de 1949, muito cedo. Casciaro celebrou a missa no barco e dispuseram-se a passar pelos longos trâmites de serviços sanitários e de migração. Após comerem no Hotel Diligências, dirigiram-se para os quartos que Manuel Suárez lhes arranjara para passarem a noite(47). Manuel Suárez era um espanhol radicado no México, com o qual Pedro manteve contacto frequente nesses anos. Era proprietário do “Techo Eterno Eureka” ou “La Eureka”, empresa de construção, com obras em diversas zonas do país (México, D.F., Nuevo Léon, Sinaloa, Vera Cruz...).
Quinta-feira, 20 de Janeiro, o Pe. Pedro celebrou a missa na igreja Expiatório de São Filipe de Jesus, dos Missionários do Espírito Santo. Parte da manhã desse dia, dedicaram-no a rezar à Virgem de Guadalupe na sua basílica de Tepeyac. Recomendaram-lhe todo o trabalho apostólico no seu novo país.
No dia seguinte, visitaram Jacinto Martínez Pando, que os tinha alojado em sua casa durante o primeiro périplo pelo México e que lhes sugeriu arrendarem um seu apartamento, na rua de Londres, 33. Nesse mesmo dia decidiram alugar o nº 4 do segundo andar, e pela tarde mudaram as suas coisas para a nova casa(49).
A partir de então, o Pe. Casciaro celebraria a missa com frequência, na paróquia do Sagrado Coração que ficava perto; o pároco Mons. Vallejo Macouzet, viria a ser seu confessor e amigo íntimo(50).
A 28 de Janeiro visitou D. Luís Maria Martínez(51) – arcebispo do México desde 1937, falecido em 1956 com fama de santidade –, a quem tinham tentado cumprimentar antes, sem conseguir vê-lo até esse dia. Nesta primeira entrevista, o arcebispo manifestou a sua alegria pela chegada de pessoas do Opus Dei à sua arquidiocese e ofereceu-lhes ajuda para o que precisassem. Além disso, prometeu-lhes uma visita e a celebração da primeira missa na residência, quando estivesse inatalada.
No dia seguinte, 29 de Janeiro, foi à Cúria Arqiepiscopal muito cedo para obter as licenças ministeriais e as autorizações do arcebispo para ter o primeiro centro e o primeiro sacrário do México e da América. No andar da rua de Londres, 33 estiveram pouco tempo: até 30 de Maio de 1949. Contudo, em princípio, não sabiam quanto tempo viveriam aí. Por isso puseram grande empenho na instalação e especialmente no oratório. Quando estudava arquitectura em Madrid, o Pe. Casciaro cultivou a sensibilidade e gosto pela arte que seria um dos traços mais característicos da sua personalidade, e que o ajudaria a pôr em prática com esmero a cuidadosa instalação dos centros e oratórios da Obra que tinha aprendido com São Josemaria. Com efeito, entre as recordações mais marcantes que conservava da sua convivência com o fundador do Opus Dei, estava a decoração do oratório da Residência de Ferraz, em Madrid(52). Poucos dias depois de ter chegado à sua nova pátria, a 23 de Janeiro, escreveu a primeira carta a São Josemaria de terras mexicanas, com o entusiasmo de lhe comunicar que já tinham casa, e para lhe explicar os detalhes das suas divisões. O imóvel constava de três salas grandes, uma cozinha e um quarto de arrumos. O oratório ficaria instalado numa das três primeiras. Mobilando os outros como quartos de dormir com sofás cama, o Pe. Pedro assegurava com optimismo que “muito comodamente” poderiam viver até sete pessoas.
No dia 1 de Fevereiro já dispunham de muitos elementos do novo oratório e continuavam a procurar outras coisas que faltavam(54).Temos o frontal e os laterais da mesa do altar, do século XVIII, de cedro, que é uma maravilha e um pequeno retábulo em forma de relicário com a Virgem de Guadalupe, também antigo. Deram-nos um cálice muito bonito”(55).
Não foi simples a operação, mas no fim conseguiram ter o oratório instalado. Em fins de Fevereiro Pedro Casciaro escrevia a São Josemaria: “Parece-me que o Senhor estará contente porque, dentro das possibilidades actuais, tudo vai ficar com muita dignidade e pusemos muito Amor”(56). Como tinha prometido, D. Luís Maria Martínez foi ao centro na terça-feira, 9 de Março, muito pontual, acompanhado de um seminarista, e celebrou a primeira missa – memória de Santa Joana Francisca de Chantal – no oratório às 8 horas e 30 minutos da manhã.(57). O Pe. Casciaro e os outros não cabiam em si de contentes.

A partir desse 9 de Março de 1949, com o Santíssimo em casa, O Pe. Pedro e os que com ele viviam intensificaram a convivência com estudantes universitários com o objectivo claro de iniciar os meios de formação espiritual específicos do Opus Dei dirigidos a estudantes: as aulas de formação ou círculos, as meditações aos sábados com a recitação ou canto da Salve Rainha, as recolecções, as visitas aos pobres e a catequese. São Josemaria tinha-lhes recomendado fortemente – e ele mesmo sabia-o por experiência – a importância que estes meios de formação tinham para o desenvolvimento do trabalho apostólico do Opus Dei, e por isso uma das principais preocupações ao chegar ao México foi começá-los quanto antes.
Em primeiro lugar, Pedro Casciaro tinha pressa de começar as aulas de formação ou círculos para estudantes universitários. Recordava bem como as que o fundador do Opus Dei dirigia: tinham lugar aos sábados. Anos mais tarde, relembrava com emoção: “Guardo uma recordação vivíssima, indelével, daqueles Círculos; das palavras do Padre; dos seus exemplos, tão gráficos e vivos [...] ensinava-nos a amar a Deus a animava-nos a ter uma profunda vida cristã”(59). No princípio de Fevereiro escrevia a São Josemaria: “Parece-me que durante este mês podemos começar um grupo de círculos”(60). Contudo, não foi fácil cumprir esse objectivo porque um mês mais tarde ainda não tinham começado, ainda que tivessem alguns rapazes dispostos. A partir do dia 9, mudou a situação, que Pedro Casciaro atribuía precisamente à presença do Senhor no sacrário, lembrando talvez uma experiência que o próprio São Josemaria tinha tido na DYA, em Madrid(62).
No último sábado de Março começou a viver-se o costume – que tinham aprendido de São Josemaria – de cantar a Salve Regina, depois da bênção com o Santíssimo, no oratório(73). A catequese nos bairros pobres, que nunca deixa de se organizar nos centros do Opus Dei frequentados por jovens, começou na primeira quinzena de Abril. Costumavam ir alguns domingos e o Pe. Casciaro celebrava a missa na paróquia local(74).
Tanto na viagem anterior (de 1948) como nos primeiros meses de 1949, o Pe. Pedro Casciaro tinha pregado várias meditações, mas na Quinta-feira Santa, 14 de Abril de 1949, pôde celebrar-se pela primeira vez um dia de recolecção no oratório de Londres, 33. A casa foi pequena e Casciaro sabia que dava alegria a São Josemaria quando lhe escrevesse a comunicá-lo: “sentimos que por agora os lugares têm de ser limitadíssimos, porque o oratório é pequeno, mas já há várias pessoas a procurar, com muito interesse uma casa maior.”(76). Não tinham passado três meses desde a sua chegada e já estavam a procurar uma sede mais espaçosa.
Os primeiros amigos e cooperadores
Pedro Casciaro tinha aprendido com São Josemaria a pedir ajuda económica para as necessidades da Obra. E desde 1936 acompanhou-o frequentemente a fazer visitas a cooperadores e amigos(77). Numa carta escrita a 18 de Abril de 1948, de Madrid, São Josemaria dizia aos que iam de viagem para a América: “Não tenham vergonha de pedir e aceitar esmolas, para o nosso instituto, por pequenas que sejam”(78). Procurando colaboradores para os começos do trabalho na América, o Pe. Pedro fez muitos contactos e verdadeiras amizades.
Na carta de Março de 1948, São Josemaria nomeou Pedro Casciaro conselheiro para todo o continente, para poder admitir sócios supranumerários. Efectivamente, há pouco tempo, a Santa Sé tinha aprovado que no Opus Dei pudessem ser admitidos, como supranumerários, pessoas casadas. Por isso, ao chegar ao México na primeira viagem, uma das ocupações principais de Pedro Casciaro tinha sido visitar muitas pessoas para lhes dar a conhecer o Opus Dei e preparar assim o trabalho estável nesse país. Quando voltou ao México, para ficar, em Janeiro de 1949, tinha mais de cem amigos desejosos de colaborar desde o princípio na implantação da Obra. Em representação deles, o Pe. Pedro convidou três casais para assistirem à sua primeira missa no oratório da rua de Londres, 33, a 10 de Março de 1949, um dia depois daquele em que Mons. Luís Martínez o benzeu e celebrou missa.
Primeira edição mexicana de Caminho
Um dos projectos que ocuparam mais a cabeça e o tempo do Pe. Casciaro, no princípio do trabalho no México, foi a primeira edição mexicana de Caminho, o livro mais conhecido do fundador do Opus Dei. Era lógico esse seu interesse. Tinha visto nascer Caminho durante meses da mais íntima convivência com o fundador, em Burgos. Tinha participado também na primeira edição espanhola de Caminho (1939)(83). E por fim, tinha sido testemunha do grande bem que o livro fazia a todos os que o liam: tinha sido um instrumento eficaz para difundir a mensagem do Opus Dei nesses dez anos que iam de 1939 a 1949.
Em Abril tinha decidido imprimir quatro mil exemplares88, com um custo total de quatro mil pesos. Para suportar os gastos contavam com um empréstimo de três mil e um donativo de mil pesos89. A 28 de Abril estiveram com o arcebispo de Yucatán, que tinha ficado encantado com a leitura do livro e estava a escrever o prólogo: “quer à Obra de verdade e está disposto a colaborar com todo o entusiasmo”, lê-se no diário do centro. Também tinha anunciado que ele se encarregaria da edição em Mérida.
Por essa altura, também o arcebispo do México, D. Luís Maria Martínez, recebeu um exemplar de Caminho directamente das mãos do autor. Com efeito, numa visita que o prelado fez a Roma no princípio de Maio de 1949, São Josemaria convidou-o a almoçar e ofereceu-lhe um exemplar91. (...) No fim tiraram-se três mil exemplares(94).
Por fim, a 18 de Novembro, Pedro Casciaro escrevia contente a São Josemaria para lhe anunciar que já tinha nas suas mãos o primeiro exemplar da primeira edição mexicana de Caminho e que lho enviaria nesse dia ou no seguinte, de avião(99).
O preço de venda era de sete pesos mexicanos e, dos três mil exemplares, quinhentos ou mil iriam ser vendidos directamente100. Em Abril de 1950 já se tinham distribuído mais de quinhentos desses exemplares.
As primeiras viagens de expansão apostólica

Em Abril de 1949 surgiu a possibilidade de fazer uma viagem a essa cidade do norte e o Pe. Pedro aproveitou imediatamente a ocasião. O motivo foi que o Eng. Roberto Avendaño, director em Monterrey de “La Eureka” – a empresa de D. Manuel Suárez – tinha feito amizade com o Pe. Pedro e convidou-o a visitar a cidade a 18 de Abril de 1949. No dia anterior, o Pe. Pedro escrevia a São Josemaria: “Vou contente a Monterrey porque ali há um bom ambiente universitário e técnico (é como a Barcelona do México)”(105).
Um mês mais tarde, foi a Culiacán. Em 1949 Culiacán era uma cidade muito pequena. A nenhum dos que chegaram ao México se lhes tinha passado pela cabeça a possibilidade de iniciar em poucos anos o trabalho apostólico nesse lugar. Deviam antes começar noutras cidades mais importantes: Guadalajara, Monterrey, Puebla, Mérida, Morelia...
Ainda que em fins de 1950 tudo apontasse para que Monterrey fosse a segunda cidade do México com um centro do Opus Dei, as circunstâncias levaram o trabalho da Obra, em primeiro lugar, a Culiacán. Monterrey teve de esperar mais dois anos.
Logo depois da viagem a Culiacán, a 30 de Maio, pela tarde mudaram-se para a nova casa da rua de Nápoles, 70. Nesse mesmo dia, em Roma, São Josemaria escrevia uma carta aos membros da Obra no México em que lhes dizia: “Queridíssimos: Com muita alegria lemos as vossas cartas. Ainda fico aqui um pouco mais de tempo. Encomendai as coisas que agora me preocupam. Eu lembro-me sempre de vós. Dizei à Ssª. Virgem de Guadalupe que me aumente o amor a seu Filho e que abençoe e atenda os meus pedidos”(111).
O Pe. Casciaro possuía uma grande capacidade de observação e, com o passar do tempo, ficou admirado com as características especiais que descobria no seu novo país. No final de 1949, em vésperas de Natal, fazia ao fundador um resumo das suas impressões sobre o ano que passara, ao mesmo tempo que lhe perguntava quando viria ao México para conhecer “um país e uma gente que merece a pena”113. Acabava de passar vinte dias em La Gavia, uma antiga herdade mexicana onde tinha dedicado muito tempo ao trabalho pastoral com gente do campo, dos arredores. Tinham-no impressionado profundamente as virtudes cristãs dessa gente: a sua grande fé, a sua humildade autêntica, a sua fortaleza e confiança na Providência divina...(114).
Percebeu que o conhecimento da idiossincrasia de um país era essencial para lançar as raízes do trabalho apostólico. Algo que o fundador já sabia, mas que nesses momentos da primeira expansão internacional do Opus Dei constituía uma informação de experiência de grande interesse. “Neste ano e meio de trabalho – escrevia a São Josemaria em Junho de 1950 –o mais importante quase é o conhecimento do que são estes países”(115). Referia-se aos países da América, onde os membros da Obra estavam “lavrando” as novas terras, com muitas possibilidades apostólicas, e que ofereciam horizontes para o trabalho do Opus Dei em todo o mundo.
Pedro Casciaro sempre se sentiu muito atraído pelo espírito universal do Opus Dei, que São Josemaria lhe tinha incutido nas suas conversas em Madrid, em Burgos e em tantos outros lugares. Preocupou-se que os primeiros mexicanos do Opus Dei participassem desse aspecto essencial da Obra. No fim de Junho de 1950, alegrava-se com as notícias da expansão do Opus Dei noutros países, que acabava de receber e escrevia a Odón Moles: “os pequenos encarregam-se da universalidade da família e vão valorizando e amando o que só conhecem pelas notícias”116. Isto não entrava em conflito com o amor à sua pátria adoptiva: desde o princípio tinha-se feito mexicano de coração, e esse carinho foi crescendo”(117).
A 6 de Março de 1950, um ano e poucos meses depois da chegada ao México, teve lugar um facto muito importante da história do Opus Dei neste país: chegaram as primeiras mulheres do Obra. O Opus Dei estava “completo”, por fim, no México, se se pode falar assim, e começava uma nova etapa do seu desenvolvimento em terra mexicana.
Victor Cano é médico cirurgião pela Universidade Nacional Autónoma do México (1973); Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra (1991). Foi professor de Teologia Fundamental e História da Teologia na Universidade Pan-americana. Entre as suas publicações, destaca-se um livro sobre história do México.
Notas
1. Pelo papel tão importante que representou nesta história, a versão completa do artigo inclui uma breve nota biográfica do Pe. Casciaro (nota do editor de www.josemariaescriva.info). Pareceu conveniente limitar o estudo a um período de tempo relativamente curto, e baseá-lo em documentação contemporânea, principalmente cartas e diários. Até agora, o que se tem publicado sobre o tema abarca períodos históricos muito amplos e está baseado principalmente em recordações de testemunhas presenciais. Cfr. Pedro Casciaro, Soñad y os quedareis cortos, Madrid, Rialp, 2002, entre outros.
2. Li 34 cartas de São Josemaria (Arquivo Geral da Prelatura, em primeiro lugar AGP, Sec. A, Leg. 260, Carp.2). Como todas têm a mesma referência de arquivo, omitirei a partir de agora para simplificar as notas.
3. As cartas do Pe. Pedro Casciaro, desde Maio de 1948 a Junho de 1950, são 169 no total (AGP, Sec. N, Série 2 [Cartas], Leg.1367-1368). Os destinatários são: São Josemaria (43), Odón Moles (36), José Luis Músquiz (32), Álvaro del Portillo (8), José Maria Hernández de Garnica (6), José Maria González Barredo (5) e outros (41). Também aqui evitarei repetir a referência ao arquivo, que é sempre a mesma.
4. São Josemaria quis que em cada centro do Opus Dei se escrevesse um diário. No caderno anotam-se os acontecimentos diários, num estilo simples e familiar. O primeiro centro do México esteve na rua de Londres, 33, e sucessivamente nas ruas de Nápoles 70 e Nápoles, 66-68. Citarei o diário de forma abreviada. Por exemplo: Diário, 21 de Janeiro de 1949. Revi os nove primeiros cadernos desse diário (de 18 de Dezembro de 1948 a 29 de Abril de 1950) e metade – até 30 de Junho – do décimo (9 de Maio de 1950 a 11 de Setembro de 1950) (AGP, Sec. N, Serie 3 [Diários], Leg. 372-373).
13. Carta de São Josemaria ao Conselho Geral, 4 de Fevereiro de 1948, citada por Andrés Vázquez de Prada, El Fundador do Opus Dei, Madrid, Rialp, 1997-2003, vol.III, p.110.
14. A 22 de Março mandou um telegrama a Pedro Casciaro (rua de Diego León 12, Madrid) no qual lhe anunciava: “Definitivamente chegarei dia 2 de Abril. Mariano”.
15. Pedro Casciaro, op.cit., p.200.
16. Era o que São Josemaria chamava fazer “a pré-história” do Opus Dei num país. Umas palavras suas explicam bem o que entendia por essa “pré-história”: “Antes de ir, costumamos estudar sempre atentamente as circunstâncias da nação: as suas características peculiares, as dificuldades que se podem encontrar, a forma mais segura de começar o trabalho, que obra corporativa deverá fazer-se primeiro, com que meios económicos poderemos contar, com que pessoas desse lugar devemos inicialmente relacionarmos, etc.” citado em Andrés Vázquez de Prada, op.cit., vol.III, p. 318.
17. Tratava-se de Ignacio de la Concha Martínez, catedrático de História do Direito da Universidade de Valência, e de José Vila Selma, secretário do Instituto de Hispanismo (Cartas de Pedro Casciaro a José Maria González Barredo, 5 de Maio de 1948 e a R.P. Hernán Benítez, 17 de Junho de 1948).
19. Diário da primeira viagem à América (13.IV-1948 a 5-VII-1948), AGP, Serie N, 1, Leg.347, Carp. 1, Exp. 684, Doc. 1.
20. Pedro Casciaro, op.cit., p.201.
22.Carta de Pedro Casciaro a José Maria Casciaro, 28 de Maio de 1948.
23 Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 8 de Junho de 1948. Nesta carta conta que fizeram uma romaria ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. Sobre a romaria de Maio como costume da Obra começado por São Josemaria, ver Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I. p. 547.
24. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 18 de Julho de 1948.
28. Isidoro Zorzano (1902-1943) foi um dos primeiros membros do Opus Dei. Faleceu a 15 de Julho de 1943 em odor de santidade (cf. José Miguel Pêro-Sanz,Isidoro Zorzano Lerdesma, Madrid, Palavra, 1996). A sua “Folha Informativa” foi um instrumento muito útil para dar a conhecer a Obra.
29. Caminho, o livro de São Josemaria mais difundido, foi editado em Valência em 1939. Cf. Josemaria Escrivá, Caminho,edição crítico-histórica, preparada por Pedro Rodríguez, Madrid, Rialp, 2002. Vid. apartado nº 8.
31. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 4 de Agosto de 1948.
32. Relato de Pedro Casciaro, AGP, Sec. P01 1979, p. 423.
33. Pedro Casciaro, op. cit., p. 201.
37. Relato de Pedro Casciaro, AGP, Sec, P01 1979, p. 424. Na segunda viagem acompanharam o Pe. Pedro dois jovens profissionais: Ignacio de la Concha – que tinha ido também na primeira viagem –, e José Grinda, engenheiro.
39. Pedro Casciaro, op. cit., p. 202.
40. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 22 de Dezembro de 1948.
45. Carta de Pedro Casciaro a Juan António Galagarra, 23 de Dezembro de 1948.
46. Para a viagem no Marqués de Comillas, cf. Diário, 18 de Dezembro de 1948 a 18 de Janeiro de 1949.
47. Diário, dias 18 a 21 de Janeiro de 1949.
49. Trata-se de uma casa de três andares, que ainda existe, situada na Colónia Juárez, entre as ruas de Nápoles e da Dinamarca, a poucos metros da Praça de Washington.
50. Em Julho de 1949, São Josemaria anuncia pela primeira vez o envio de outro sacerdote do Opus Dei para o México: “a ver se pode ser em princípios de cinquenta”, diz-lhes (Carta de São Josemaria aos membros do Opus Dei no México, 6 de Julho de 1949). Até o princípio de 1951 não se começa a concretizar a mudança de D. Emílio Palafox: Chegaria a 17 de Agosto de 1951, procedente de Madrid.
51. D. Luis Maria Martínez nasceu na Hacienta Molinos de Caballero (Michoacán), a 9 de Junho de 1881. O P. Pedro Fernández Rodriguez O.P., Biografia de um homem providencial. Mons, Luis Maria Martínez, México D.F., Seminário Conciliar do México, 2003.
52. Cf. Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I, P. 544.
54. Poucos dias mais tarde escrevia a São Josemaria: “Temos bastante gente mobilizada para conseguir tudo o necessário para o oratório” (Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 5 de Fevereiro, 1949).
55. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 1 de Fevereiro de 1949.
56. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 21 de Fevereiro de 1949.
57. Diário, 9 de Março de 1949.
59 Pedro Casciaro, op. cit., p. 31.
60. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 5 de Fevereiro de 1949.
62. Cf. Andrés Vázquez de Prada, op. cit., vol. I, p.546.
73. Diário, 26 de Março de 1949.
74. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 11 de Abril de 1949.
76. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 17 de Abril de 1949.
77. Pedro Casciaro, op. cit., p. 61-63.
78. Refere-se ao Opus Dei, que tinha sido aprovado por Pio XII como instituto secular com o Decretum laudis, que levava por título Primum Institutam, do 24 de Fevereiro de 1947. Cf. Federico M. Requena – Javier Sesé, Fuentes para la historia del Opus Dei, Barcelona, Ariel, 2002.
83. Para conhecer esta participação, ver “Casciaro Ramírez, Pedro” no índice de nomes de Josemaria Escrivá, Caminho, edição crítico-histórica, preparada por Pedro Rodríguez, 3ª ed., Madrid, Rialp, 2004, pp.61-148.
88. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 11 de Abril de 1949.
89. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles e a Francisco Botella, 27 de Abril de 1949.
91. A dedicatória é a seguinte: “A Sua Excelência Reverendíssima, D. Luis Maria Martínez, com veneração, carinho e agradecimento. Roma, 8 – Maio – 1949. Josemaria Escrivá de B”. O exemplar conserva-se actualmente numa vitrina da Sede da Comissão Regional do Opus Dei no México (...).
94. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 27 de Julho de 1949. Um mês mais tarde consideram a possibilidade de fazer outra edição de Caminho, de dois mil exemplares, em papel Bíblia e encadernado em pele flexível, tamanho de bolso (Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 27 de Agosto de 1949). Essa edição não se chegou a fazer.
99. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 18 de Novembro de 1949. Na última página da edição aparece o seguinte texto: “Este livro acabou de se imprimir na Impressora Insurgentes, S. de R.L., dia 2 de Outubro, Festa dos Santos Anjos da Guarda, do Ano do Senhor MCMIL” E logo segue o Nihil obstat e o Imprimatur do Arcebispo do México. A primeira edição mexicana de Caminho segue a quinta edição realizada em Espanha, em 1948. Cf. Josemaria Escrivá, Caminho, op. cit., p. 1047.
100. A 3 de Dezembro, por exemplo, Gonzalo Ortiz de Zárate encarregou-se de preparar o envio dos cento e cinquenta exemplares de Caminho que pediu o Arcebispo de Yucatán para os seus seminaristas (Diário, 3 de Dezembro de 1949). Pouco depois, o Pe. Pedro escreve a São Josemaria da herdade da Gavia comentando este envio (carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 8 de Dezembro de 1949). O Pe. Pedro escreveu também aos outros membros do Opus Dei que se encontravam noutros países da América para saber se necessitavam de exemplares.
102. Já desde a primeira viagem, em 1948, O Pe. Pedro Casciaro e os que o acompanhavam, pensavam ir a Monterrey dar conferências (Carta de Pedro Casciaro a José Maria González Barredo, 7 de Junho de 1948). Por fim, não puderam fazer a viagem programada a essa cidade (Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 4 de Agosto de 1948).
103. Cartas de Pedro Casciaro a José Luis Músquiz, 6 de Abril de 1949 e 12 de Abril de 1949.
105. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 17 de Abril de 1949. O Pe. Pedro alude à fama de cidade industrial e dinâmica que Barcelona é em Espanha.
111. Carta de São Josemaria aos fiéis do OpusDei no México, 30 de Maio de 1949.
113. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 23 de Dezembro de 1949.
114. Carta de Pedro Casciaro a José Luis Músquiz, 23 de Dezembro de 1949, em que diz que os “indiozinhos” “são estupendos” e comenta que, especialmente as mulheres da Obra, poderão fazer muito trabalho entre eles.
115. Carta de Pedro Casciaro a São Josemaria, 12 de Junho de 1950.
116. Carta de Pedro Casciaro a Odón Moles, 23 de Junho de 1950.
117. Depois de um mês de estar no México, escrevia a Álvaro del Portillo, cuja ascendência mexicana por parte da mãe remontava à época do vice-reinado: “Pode estar orgulhoso da sua ascendência mexicana: esta gente faz-se amar e de boa vontade se perdoam os seus defeitos observando as suas virtudes” (Carta de Pedro Casciaro a Álvaro del Portillo, 5 de Fevereiro de 1949).
O estudo completo pode ler-se no Vol. 1 (2007) da Revista do Instituto Histórico de São Josemaria, Studia et Documenta
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