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Quando o cristão se comporta como cristão, convence

Joaquín Navarro-Valls

Etiquetas: Cultura
Extractos da conferência de Joaquín Navarro-Valls no encerramento do XII Congreso "Católicos e vida pública", que teve lugar em Madrid no dia 19 de Novembro de 2010.

A situação contemporânea conduz-nos inevitavelmente às origens da cristandade. Após decénios, talvez séculos, em que os cristãos procuraram defender as sociedades ocidentais da descristianização da cultura, encontrando-nos hoje numa situação que poderíamos denominar de neo-pagã, a fé não pode jogar à defesa. Já não se trata de uma tradição que é necessário salvaguardar, mas de uma perspectiva de vida futura que é preciso recriar, construir. A pergunta não é se o cristianismo conseguirá sobreviver, mas se a fé cristã poderá expandir-se novamente como há dois mil anos.

Como comunicar ao mundo de hoje a realidade cristã? Os primeiros cristãos sabiam comunicar bastante bem sem licenciaturas em Ciências da Comunicação. Nem sequer tinham uma cultura particularmente elaborada, mas foram eles que venceram a batalha da cultura e da comunicação de então. Porque, quando o cristão se comporta como cristão, convence sempre. Uma pessoa com convicções possui uma potência infinitamente superior à de quem só tem interesses. O cristianismo, deste ponto de vista, é principalmente um modo de viver, que enquanto vive a vida, a racionaliza, a explica, torna evidente toda a sua congruência interna...

Temos de voltar a Jesus de Nazaré. Mas só há um caminho que conduz a Ele: a conversa pessoal nos âmbitos sacramental e da oração. Para a maior parte de nós a oração é uma obrigação.
Para João Paulo II era outra coisa, não era nunca uma obrigação a determinadas horas do dia, mas uma necessidade. Isto serve para ilustrar a raiz de onde brota toda a missão dos cristãos: a união com Quem dá ao cristão a sua própria missão. A não ser assim, não podemos falar de missão do cristão, mas da missão de Joaquín Navarro ou de um outro qualquer. Se a missão me vem de outro, eu não posso largar a mão desse outro.

O que têm em comum
João Paulo II repetiu em várias ocasiões que a síntese entre cultura e fé não é só uma exigência da cultura, mas também da fé. Uma fé que não se faz cultura é uma fé não totalmente acolhida, não completamente pensada, não fielmente vivida. Condensava nessas linhas toda a sua experiência humana de crente e de Pontífice, mas também de intelectual. Quando, por exemplo, o Génesis nos fala da criação do homem e da sua semelhança divina, esse dado é capaz de forjar toda uma cultura, toda uma antropologia que deve ser elaborada, amadurecida, desenvolvida de um modo racional e científico. E é cultura aceitar que, como consequência daquela semelhança, o sinal de Deus no mundo somos nós próprios. Também se faz cultura cada vez que, na vida corrente, tratamos as pessoas do único modo justo e consequente com aquele dado da nossa origem divina.

Foi-me concedido o dom de ter conhecido três santos: São Josemaria, o Servo de Deus João Paulo II e a Beata Madre Teresa. Para mim foi inevitável questionar-me se estas pessoas tão diferentes têm algo em comum. A conclusão a que cheguei é que o que tinham em comum era o bom humor, um bom humor extraordinário, contagioso, que fazia rir até em ocasiões em que parecia obrigatório chorar. Esse bom humor não era produto de uma psicologia festiva, mas apoiava-se em algo muito mais consistente, que permeia o carácter humano, convertendo o homem em semeador de alegria.

Quem acredita que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança nunca tem motivo para perder o bom humor. Essa é a segurança que não pode faltar a um cristão que realiza a sua missão no mundo de hoje, convencido de que o final é um happy end.