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Sacerdote, só sacerdote. S. Josemaria Escrivá modelo de vida sacerdotal
D. Javier Echevarría

Apresentamos por esse motivo um artigo de D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei, sobre São Josemaria "Sacerdote, só sacerdote. São Josemaria modelo de vida sacerdotal"
Evocar a figura e os ensinamentos deste santo sacerdote [S. Josemaria Escrivá de Balaguer] constitui para mim uma alegria muito grande. Sim, além disso, as pessoas que me escutam são presbíteros, a minha alegria multiplica-se, pois conheço bem o amor de predilecção – mais ainda, veneração – que o Fundador do Opus Dei dispensava aos seus irmãos no sacerdócio. Como se alegrava quando tinha a ocasião de se reunir com eles! Aprendia de todos e, a quem lho pedia, não tinha reparo em abrir-lhes o coração para lhes falar dos grandes amores da sua vida: Cristo com Maria, a Igreja e o Papa, todas as almas. Costumava dizer que, nessas ocasiões, se sentia como quem vai vender mel ao colmeeiro. Mas o seu mel era de tanta qualidade, que os que o ouviam saíam dessas reuniões com renovados desejos de fidelidade à vocação, com a alma transbordante de optimismo, decididos a gastar-se com alegria na tarefa pastoral e apostólica.
Identidade do sacerdote
Começarei a minha intervenção com umas palavras que S. Josemaria costumava dirigir aos recém ordenados, mas que nos servem também – e talvez mais especialmente – a nós que contamos muitos anos de sacerdócio. Dizia: «sede, em primeiro lugar, sacerdotes; depois sacerdotes; sempre e em tudo, só sacerdotes». Nesta afirmação transparece o seu altíssimo conceito do sacerdócio ministerial, pelo que uns pobres homens – que isso somos todos diante do Senhor – são constituídos servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus (1 Cor 4, 1). Tão firme era a sua fé na identificação sacramental com Cristo que se leva a cabo no sacramento da Ordem, que o seu único sinal de glória, ao lado do qual empalideciam todas as honras da terra, era simplesmente ser sacerdote de Jesus Cristo.
Os santos, desde os tempos mais antigos, têm comentado a dignidade do sacerdócio. Vários Papas – entre os quais recordo especialmente S. Pio X, Pio XI e o actual Romano Pontífice – escreveram documentos inesquecíveis, que têm alimentado e continuam a alimentar a nossa vida sacerdotal. Também S. Josemaria nos deixou o seu ensinamento. Numa homilia de 1973, quando se espalhavam vozes confusas sobre a identidade do sacerdote e o valor do sacerdócio ministerial, resumia o seu pensamento com as seguintes palavras: «esta é a identidade do sacerdote: instrumento imediato e diário da graça salvadora que Cristo ganhou para nós. Se se compreende isto, se isto é meditado no silêncio activo da oração, como se pode considerar o sacerdócio uma renúncia? É um ganho impossível de calcular. A Nossa Mãe Santa Maria, a mais santa das criaturas – mais do que Ela, só Deus – trouxe Jesus ao mundo uma vez; os sacerdotes trazem-no à nossa terra, ao nosso corpo e à nossa alma, todos os dias: Cristo vem para nos alimentar, para nos vivificar, para ser, desde já, penhor da vida futura» 1.
O sentido da grandeza do sacerdócio levava-o a cuidar com esmero a sua vocação sacerdotal, da qual se encontrava cada vez mais enamorado. Quando, para atender aos pedidos dos que estavam ao seu lado, se referia às vezes ao processo da sua vocação, sempre fazia sobressair a iniciativa de Deus, que lhe saiu ao encontro quando tinha quinze ou dezasseis anos. Como bem sabeis, foi em Logronho, em Dezembro de 1917 ou Janeiro de 1918, onde o adolescente Josemaria Escrivá teve os primeiros pressentimentos de que o Senhor o chamava para algo que não sabia o que era. Não lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade do sacerdócio. Contudo, perante essa acção de Deus, com o fim de melhor se preparar para cumprir a Vontade divina, decidiu ir para o Seminário. Com toda a verdade podia afirmar, passados os anos, que o começo da sua vocação sacerdotal tinha sido «uma chamada de Deus, uma suspeita de amor, um enamoramento de um rapaz de quinze ou dezasseis anos» 2.
No Seminário de Logronho recebeu a primeira formação sacerdotal, que depois completaria em Saragoça. Deus queria que a semente que ia lançar sobre a terra a 2 de Outubro de 1928, encontrasse um coração de sacerdote preparado a fundo para a acolher e fazer frutificar. Por isso, grato a Nosso Senhor, S. Josemaria afirmava que a sua vocação era – deixai-me que insista – a de ser sacerdote, só sacerdote, sempre sacerdote. Amava com loucura esta condição que, configurando-o com Cristo, o havia preparado para ser instrumento, nas mãos de Deus, para a fundação do Opus Dei.
Dom e tarefa
Ao enumerar as condições dos candidatos ao sacerdócio, antigamente prescrevia-se que deveriam ser escolhidos entre homens que levassem uma vida honesta. Esta norma, minimalista e já superada, parecia muito pobre a S. Josemaria. «Entendemos, com toda a tradição eclesiástica – escrevia em 1945 –, que o sacerdócio pede – pelas funções sagradas que lhe competem – algo mais que uma vida honesta: exige uma vida santa em que o exerce, constituídos – como estão – em mediadores entre Deus e os homens» 3.
Josemaria Escrivá tinha recebido, no seio da sua família e no colégio, uma formação profundamente cristã, que incluía o conhecimento da doutrina, a frequência dos sacramentos, a preocupação concreta pelas necessidades espirituais e materiais das pessoas, como referem diversas testemunhas daquela época. Ao receber a chamada divina para o sacerdócio, a sua existência mudou radicalmente, no sentido de que aumentou a intensidade e frequência da sua intimidade com Deus e a sua preocupação com os outros. Isto levou-o a uma maturidade não adequada à idade que tinha, mas sobrenaturalmente lógica. Cumpria-se na sua vida o que afirma a Sagrada Escritura: super senes intellexi quia mandata tua servavi 4, sou mais sagaz que os idosos, porque observo os teus preceitos. Desde aqueles pressentimentos, o adolescente Josemaria começou a tomar a sério a santidade, procurando conhecer e cumprir fidelissimamente a Vontade de Deus.
Quando o Concílio Vaticano II, no capítulo V da Constituição dogmática Lumen gentium, aborda o tema da vocação dos baptizados à santidade, afirma: «Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Baptismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam» 5.
Como membros do Corpo Místico de Cristo, em que fomos enxertados pelo Baptismo, todos fomos santificados com radicalidade: trazemos em nós o gérmen e início da vida nova que Cristo nos ganhou com a sua Morte e a sua Ressurreição. A consagração baptismal é a realidade fundamental do chamamento à santidade em todos os géneros de vida. Deste ponto de vista, atendendo à absoluta gratuidade daquilo que recebemos, a santificação surge claramente na sua dimensão de dom: um presente imerecido que o nosso Pai-Deus nos dá, em Cristo, pelo Espírito Santo. Ao mesmo tempo, a santificação é uma chamada pessoal, uma tarefa que se outorga à responsabilidade da cada cristão. S. Josemaria dirá que é obra de toda a vida 6.
A santidade é, pois, dom e tarefa. Entrega gratuita de um bem imerecido e, ao mesmo tempo, encargo que devemos levar até ao fim com esforço pessoal, com correspondência heróica, empenhando-nos num verdadeiro compromisso de vida cristã.
A santidade sacerdotal como dom
Ao ser uma única a condição radical de todos os baptizados, todos – sacerdotes e leigos – somos chamados de igual modo à plenitude da vida cristã. «Não há santidade de segunda categoria: ou existe uma luta constante por estar na graça de Deus e ser conformes a Cristo, nosso Modelo, ou desertamos dessas batalhas divinas. Nosso Senhor convida-nos a todos, para que cada um se santifique no seu próprio estado» 7.
Estamos face a uma das intuições fundamentais que S. Josemaria Escrivá pregou, por encargo divino, desde 1928. Ao fundar o Opus Dei, o Senhor mostrou-lhe que cada pessoa deve procurar santificar-se no próprio estado, no género de vida em que foi chamado, no seu próprio trabalho e através do seu próprio trabalho, segundo a conhecida expressão de S. Paulo: permaneça cada um naquele estado em que Deus o chamou (1 Cor 7, 20).
A santidade, nos sacerdotes e nos leigos, edifica-se, portanto, sobre o mesmo fundamento: a consagração originária do Baptismo, aperfeiçoada pela Confirmação. Contudo, é evidente que o dever de alcançar a santidade urge especialmente o sacerdote, que foi tomado de entre os homens, no que se refere a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados (Hb 5, 1).
«Em contínuo contacto com a santidade de Deus – escreveu João Paulo II – o próprio sacerdote deve tornar-se santo. É o seu próprio ministério que o obriga a uma opção de vida inspirada no radicalismo evangélico» 8. E acrescenta no livro Dom e Mistério, escrito pela ocasião do quinquagésimo aniversário da sua ordenação sacerdotal: «Se o Concílio Vaticano II fala da vocação universal à santidade, no caso do sacerdote é preciso falar de uma especial vocação à santidade. Cristo precisa de sacerdotes santos! O mundo de hoje reclama sacerdotes santos! Só um sacerdote santo se pode tornar, num mundo cada vez mais secularizado, uma testemunha transparente de Cristo e do seu Evangelho. Só assim é que o sacerdote pode tornar-se guia dos homens e mestre de santidade» 9.
O sacerdote foi consagrado duas vezes para Deus: no Baptismo, como todos os cristãos, e no sacramento da Ordem. Por isso, se não se pode falar de santidade de primeira ou de segunda categoria – porque todos somos convidados à perfeição com a que o Pai celestial é perfeito (cfr. Mt 5, 48) – não há dúvida de que sobre os sacerdotes recai especialmente o dever de aspirar à santidade. Releiamos umas palavras do Fundador do Opus Dei que resultam especialmente clarificadoras. «Todos os cristãos podem e devem ser, não já alter Christus, mas ipse Christus: outros Cristos, o próprio Cristo! Mas no sacerdote isto dá-se imediatamente, de forma sacramental» 10.
No exercício do ministério para o qual foi ordenado, encontra o sacerdote o alimento da sua vida espiritual, o material que o faz arder no amor de Deus. Por isso, seria um grave erro se outras aspirações ou outras tarefas esbatessem na sua alma o que, para ele, se concretiza em algo de indispensável para alcançar a santidade: a celebração cuidadosa e cheia de amor do Sacrifício da Missa, a pregação da Palavra de Deus, a administração dos sacramentos aos fiéis, especialmente o da Penitência; uma vida de oração constante e de penitência alegre; o cuidado das almas que lhe são confiadas, junto com os mil um serviços que uma caridade vigilante sabe dispensar.
Desde que intuiu a chamada para o sacerdócio, e mais explicitamente, desde que foi ordenado sacerdote, S. Josemaria quis identificar-se com Cristo, ser o próprio Cristo, no exercício do ministério sacerdotal e em toda a sua existência. Daí a sua vida de oração, a sua celebração pausada da Missa, a sua “necessidade” de permanecer longos momentos junto ao Sacrário; e, ao mesmo tempo, a sua urgência em procurar as almas para as conduzir a Cristo, por caminhos de santidade. Compreendeu que se pode e se deve levar um comportamento santo em todos os estados da vida, e concretamente no matrimónio; por isso, desde os seus primeiros anos como pastor, além de encaminhar muitas pessoas pelo caminho do celibato apostólico assumido com verdadeira alegria, animou muitas outras a descobrir a dignidade da vocação matrimonial.
Escreve João Paulo II: «Posso dizer que se encontra cada dia mais, naquele Mysterium fidei, o sentido do próprio sacerdócio. Ali está a medida da resposta que tal dom requer. O dom é cada vez maior! E é maravilhoso que assim seja. Bom é que um homem não possa dizer nunca que já correspondeu plenamente ao dom. É um dom e também uma tarefa: sempre! Ter consciência disto é fundamental para se viver plenamente o próprio sacerdócio» 11.
S. Josemaria Escrivá celebrava cada dia a Santa Missa com paixão de enamorado, bem consciente de que «pelo sacramento da Ordem, o sacerdote torna-se efectivamente apto para emprestar a Nosso Senhor a voz, as mãos, todo o seu ser» 12. Reparai como descrevia numa reunião familiar esse misterioso eclipse da personalidade humana do presbítero, que nesses momentos se converte em instrumento vivo de Deus:
«Chego ao altar e a primeira coisa em que penso é: Josemaria, tu não és Josemaria Escrivá de Balaguer (…): és Cristo. Todos os sacerdotes somos Cristo. Eu empresto ao Senhor a minha voz, as minhas mãos, o meu corpo, a minha alma: dou-lhe tudo. É Ele quem diz: isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue, é ele que consagra. Se não, eu não poderia fazê-lo. Ali renova-se de modo incruento o divino Sacrifício do Calvário. De maneira que estou ali in persona Christi, fazendo as vezes de Cristo. O sacerdote desaparece como pessoa concreta: o P.e Fulano, o P.e Beltrano ou Josemaria… Não Senhor! É Cristo» 13.
A santidade sacerdotal como tarefa
A grandeza incomparável do sacerdote fundamenta-se na sua identificação sacramental com Cristo, que o leva a ser ipse Christus e a actuar in persona Christi capitis, sobretudo na celebração eucarística e no ministério da Reconciliação. «Uma grandeza emprestada, compatível com a minha pequenez. Peço a Deus Nosso Senhor que nos dê, a todos os sacerdotes, a graça de realizar santamente as coisas santas, de reflectir, também na nossa vida, as maravilhas das grandezas de Nosso Senhor» 14.
Cada cristão deve procurar que a sua condição de seguidor de Jesus Cristo se reflicta em toda a sua conduta: na família, na profissão, na actividade social, pública, desportiva… Também na existência concreta do sacerdote, na sua vida diária, deve manifestar-se a sua específica relação com Cristo. Pelo carácter indelével recebido na ordenação, é-se sacerdote durante as vinte e quatro horas do dia, não só nos momentos em que exercita expressamente o ministério. Convém tê-lo muito presente na época actual, quando vão desaparecendo – da nossa sociedade multicultural e multi-religiosa – tantos sinais que recordavam aos nossos antepassados a primazia de Deus e da vida sobrenatural. Não o digo com pessimismo, mas sim com ânimo de que nos esforcemos para que não se percam as raízes cristãs do nosso povo, que se manifestam também em tradições piedosas, em elementos da cultura, da arte e dos costumes.
O sacerdote deve chegar à meta da santidade, como por um plano inclinado, sob a direcção do Espírito Santo, que é quem modela nos filhos adoptivos de Deus os traços de Jesus Cristo. Neste processo, que dura toda a vida, junto com a acção sobrenatural da graça, é decisiva a resposta dócil da criatura.
Sem esforço por praticar as virtudes, sem luta por desenvolvê-las todos os dias, com constância, não é possível a santidade. Em que se centram os hábitos virtuosos que hão de estruturar a santidade do sacerdote? No mesmo que nos demais fiéis, pois todos somos chamados a meta idêntica – a união com Deus – e dispomos dos mesmos meios para alcançá-la. A diferença apoia-se no modo de exercitar essas virtudes. No sacerdote, tudo deve cumprir-se sacerdotalmente; quer dizer, tendo sempre presente a finalidade da sua vocação específica, o serviço às almas. Temos de seguir o exemplo do Senhor, que afirmou de si mesmo: Eu consagro-Me por eles, para eles serem também consagrados na verdade (Jo 17, 19).
Torna-se impossível, neste breve tempo, expor uma súmula completa das virtudes sacerdotais. Limitar-me-ei a apresentar algumas que considero capitais no ensino e no exemplo de S. Josemaria.
Virtudes humanas do sacerdote
Utilizando a metáfora da construção – imagem de raízes bíblicas –,o que primeiro se procura é um terreno sólido. O próprio Cristo alude a esta necessidade, na conclusão do Sermão da Montanha, quando fala do homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha, de modo que, quando chegaram os ventos e as chuvas, nada puderam contra essa casa (cfr. Mt 7, 24-25).
Na vida espiritual do cristão, o terreno sólido do edifício espiritual configura-se pelas virtudes humanas, pois a graça pressupõe sempre a natureza. Convém não esquecer que o sacerdote não deixa de ser homem ao receber a ordenação. Pelo contrário, precisamente por ter sido escolhido dentre os homens e constituído mediador entre os homens e Deus (cfr. Hb 5, 1), necessita cuidar a sua preparação humana, que o torna mais capaz de servir melhor as almas.
«Compreende esta formação – escreve Mons. Álvaro del Portillo – o conjunto de virtudes humanas que se incluem directa e indirectamente nas quatro virtudes cardeais, e a bagagem de cultura não eclesiástica indispensável para que o sacerdote possa exercer com facilidade – ajudado, evidentemente, pela graça – o seu apostolado» 15. O meu predecessor à frente da Prelatura do Opus Dei realça os motivos principais que devem levar o sacerdote a adquirir e a desenvolver estas virtudes: «O primeiro, como parte da luta ascética normalmente necessária para chegar à perfeição; o segundo, como meio para exercitar com maior eficácia o apostolado» 16.
Na vida e nos ensinamentos de S. Josemaria, é claro este aspecto basilar da formação cristã e da especificamente sacerdotal. Temos numerosas provas desta afirmação, desde a sua infância até ao seu falecimento em 1975. As testemunhas do seu trabalho pastoral são unânimes ao descrevê-lo como um sacerdote enamorado de Jesus Cristo, entregue ao serviço das almas, com uma personalidade forte e harmoniosa, na qual o humano e o sobrenatural se fundiam estreitamente em unidade de vida. Pelo que se refere aos seus ensinamentos, resulta paradigmática a homilia “Virtudes humanas”, recolhida no livro Amigos de Deus, onde assenta o fundamento teológico da necessidade de cultivar as virtudes humanas: a profundidade da Encarnação do Verbo, perfeito Homem sem deixar de ser perfeito Deus. Nessa homilia analisa as principais virtudes que um cristão e um sacerdote devem cultivar: a fortaleza, a serenidade, a paciência, a laboriosidade, a ordem, a diligência, a veracidade, o amor à liberdade, a sobriedade, a temperança, a audácia, a magnanimidade, a lealdade, o optimismo, a alegria.
Sobre o fundamento da humildade
«A humildade é o fundamento da nossa vida, meio e condição de eficácia» 17, escreve S. Josemaria, em sintonia com a tradição espiritual do Cristianismo. Evidentemente refere-se ao fundamento moral, pois o teologal – como pregou com o seu comportamento e ensino – se centra na fé teologal, que leva a assumir com profundidade o sentido da nossa filiação divina em Cristo. Esta convicção faz realçar perante os homens a verdade mais profunda sobre nós mesmos e, por tanto, potencia necessariamente a humildade, que não reflecte outra coisa que aquele “andar na verdade” da Santa de Ávila: o caminhar na fé.
Com uma fé forte, como base da resposta cristã, passa-se por alto o erro de apresentar a humildade como falta de decisão ou de iniciativa, como renúncia ao exercício de direitos que são deveres. Nada mais longe do pensamento do Fundador do Opus Dei. «Sermos humildes – pregava numa ocasião – não é andarmos sujos, nem de qualquer maneira; nem mostrarmo-nos indiferentes perante tudo ao que se passa à nossa volta, numa contínua desistência de direitos. Muito menos é irmos apregoando coisas tontas sobre nós mesmos. Não pode haver humildade onde há comédia e hipocrisia, porque a humildade é a verdade» 18.
Tão importante é esta virtude na vida cristã, que S. Josemaria assegurava que, «do mesmo modo que se condimentam com sal os alimentos, para que não sejam insípidos, na nossa vida temos de pôr sempre a humildade» 19. E recorria a uma comparação clássica: «não façais como essas galinhas que, mal põem um único ovo, atroam os ares cacarejando por toda a casa. Devemos trabalhar, devemos desempenhar o trabalho intelectual ou manual, e sempre apostólico, com grandes intenções e grandes desejos – que o Senhor transforma em realidades – de servir a Deus e de passar despercebidos» 20.
Mas voltemos a considerar o fundamento teologal, isto é, a fé, e com a fé, a esperança: não há santidade se não se desenvolve uma fé abrangente da realidade, se não se fomenta – como a força que impele o peregrinar terreno– a virtude da esperança. Desde o primeiro momento, o Fundador do Opus Dei estava bem consciente de que a missão que Deus lhe tinha confiado era imensamente superior às suas forças. Por isso recorreu com insistência, sem nunca os abandonar, aos únicos meios capazes de pôr ao nosso alcance a omnipotência divina: a oração e o sacrifício. São inumeráveis os testemunhos que documentam como foi mendigando, pelos hospitais e pelos bairros da periferia de Madrid, como se de um tesouro se tratasse, a oração e o oferecimento a Deus da dor de muitas pessoas abandonadas, às quais levava o consolo e o alento da sua assistência sacerdotal.
Quanta necessidade nós os sacerdotes temos de que a nossa fé e a nossa esperança aumentem mais e mais! Encontramo-nos metidos num trabalho onde o que mais conta, o único absolutamente necessário (cfr. Lc 10, 42), são os meios sobrenaturais. Requerem-se verdadeiros milagres, para levar as almas a Deus. Contudo, «ouve-se às vezes dizer que actualmente os milagres são menos frequentes. Não se dará antes o caso de serem menos as almas que vivem vida de fé?» 21. Estas palavras de S. Josemaria ressoam aos nossos ouvidos como uma chamada de atenção, uma chamada ao nosso sentido de responsabilidade, porque o sacerdote tem de ser, antes de tudo, um homem de fé e um homem de esperança. «Pela fé – escreve o Papa – tem acesso aos bens invisíveis, que constituem a herança da Redenção do mundo, realizada pelo Filho de Deus» 22.
Ora a fé é fundamento dos bens esperados, demonstração das realidades invisíveis (Hb 11, 1). E é «na oração perseverante de cada dia, com facilidade ou com aridez, onde o sacerdote, como todo o cristão, recebe de Deus (…) luz nova, firmeza na fé, esperança segura na eficácia sobrenatural do seu trabalho pastoral, amor renovado: numa palavra, o impulso para perseverar nesse trabalho e a raiz da efectiva eficácia do próprio trabalho» 23. Nestas palavras de D. Álvaro del Portillo, o mais directo colaborador do Fundador do Opus Dei durante muitos anos, podemos descobrir uma delicada alusão à vida espiritual de S. Josemaria, que recebeu de Deus a graça de ser contemplativo no meio das tarefas mais absorventes. Acrescenta D. Álvaro: «Sem oração, e sem oração que se esforça por ser contínua, no meio de todos os afazeres, não há identificação com Cristo no que esta tem de tarefa, fundamentada no que ela tem de dom. Mais ainda, atrevo-me a dizer que um sacerdote sem oração, se não deturpa a imagem de Cristo – Modelo para todos – apresenta-a como uma nebulosa que não atrai nem orienta, que não serve de norte para o povo que nos vê ou nos ouve» 24.
Caridade pastoral
Chegamos assim à virtude mais concludente e característica da vida cristã: a caridade, que no sacerdote adquire contornos precisos: é caridade pastoral. Em poucas palavras, nasce a consciência de ser representante de Jesus Cristo, o Pastor supremo (1Pe 5, 4) de almas, que dá a vida pelas ovelhas (cfr. Jo 10, 11). Esta convicção sobrenatural estimula o sacerdote a gastar-se até ao extremo no exercício do seu ministério, pois o amor de Cristo o impele (cfr. 2 Cor 5, 14). Uma caridade pastoral, forte e perseverantemente alimentada na Eucaristia e na oração, dará eficácia de frutos ao seu ministério.
A figura de S. Josemaria revela-se muito elucidativa a este respeito. Desde os primeiros momentos da sua vocação, não se poupou a nenhum trabalho no serviço às almas. Atrás aludi brevemente às suas andanças pelos bairros periféricos de Madrid nos anos 20 e 30, em perene contacto com a pobreza e a doença, atendendo os moribundos, confortando os enfermos, ensinando às crianças e aos adultos a doutrina cristã. Posso assegurar – porque o vi com os meus olhos – que assim consumiu o resto da sua existência, até ao último dia: sempre atento aos demais, perto ou longe, conhecidos ou desconhecidos: rezava e sacrificava-se gostosamente por todas as almas, sem excepção.
A assunção peculiar da pessoa por Deus, que se dá na ordenação sacerdotal, faz com que o presbítero se vincule e consagre integralmente ao serviço e ao amor total de Cristo. Com uma importância tão significativa se apresenta a riqueza deste dom, que pode assumir como suas – num sentido particularmente profundo – as palavras do Apóstolo: para mim, viver é Cristo (Phil 1, 21), já não sou eu que vivo , é Cristo que vive em mim (Gal 2, 20). Por outro lado, a missão recebida tem um carácter universal: o sacerdote é enviado ao mundo inteiro, como instrumento vivo de Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e purificar, para Si, um povo que seja Seu, cheio de zelo do bem (Tit 2, 14).
A identificação sacramental com Cristo, junto com a missão recebida, constituem os alicerces das exigências peculiares da caridade pastoral, e colocam o sacerdote numa situação especial no mistério de Cristo e da Igreja. Comentando o aprofundamento doutrinal levado a cabo, a este propósito, pelo Concílio Vaticano II, D. Álvaro del Portillo escreve: «Se se considera que o Amor encarnado entre os homens evitou qualquer compromisso humano – por justo e nobre que fosse – que pudesse em qualquer momento dificultar ou diminuir a plenitude à sua dedicação ministerial, compreende-se bem a conveniência de que o sacerdote faça o mesmo, renunciando livremente – pelo celibato – a algo em si bom e santo, para se unir mais facilmente a Cristo com todo o coração, e por Ele e n’Ele dedicar-se com mais liberdade ao serviço total de Deus e dos homens» 25.
O celibato sacerdotal apresenta-se como manifestação da completa oblação da sua vida que o sacerdote, livremente, oferece a Cristo e à Igreja. Nesta óptica, entendem-se bem as palavras de S. Josemaria num momento de conversa familiar, em 1969. «O sacerdote, se tem verdadeiro espírito sacerdotal, se é homem de vida interior, nunca se poderá sentir só. Ninguém como ele poderá ter um coração tão enamorado! É o homem do Amor, o representante entre os homens do Amor feito homem. Vive por Jesus Cristo, para Jesus Cristo, com Jesus Cristo e em Jesus Cristo. É uma realidade divina que me comove até às entranhas, quando todos os dias, levantando e tendo nas mãos o Cálice e a Sagrada Hóstia, repito devagar, saboreando-as, estas palavras do Cânon: Per Ipsum, et cum Ipso et in Ipso… Para as almas eu vivo, por Ele, com Ele, n’Ele, para Ele. Vivo do seu Amor e para o seu Amor, apesar das minhas misérias pessoais. E apesar dessas misérias, talvez por elas, o meu Amor é um amor que cada dia se renova» 26.
Fraternidade sacerdotal
Amando todas as almas sem excepção, S. Josemaria reservava um amor de predilecção para com os seus irmãos sacerdotes. Já aludi à sua alegria quando podia reunir-se com eles, para aprender com a sua entrega – tantas vezes heróica – e para lhes transmitir ao mesmo tempo algo da sua experiência pessoal. Mas não posso deixar de recordar os seus cuidados concretos pelos presbíteros, especialmente durante os anos que residiu em Espanha. Na década dos anos 40, por exemplo, a pedido dos Bispos diocesanos, pregou muitos retiros ao clero, que se encontrava necessitado de ajuda espiritual depois da terrível prova da perseguição religiosa dos anos anteriores. S. Josemaria deu-se por inteiro à tarefa, e chegou a atender, às vezes, mais de mil presbíteros num só ano.
Até ao fim da sua vida, alimentou um pedido urgente ao Senhor, para que Deus enviasse à Igreja muitas vocações sacerdotais. Pessoalmente, preparou e encaminhou para os seminários grande número de jovens com inquietações vocacionais para o sacerdócio. E animava os fiéis leigos a rezarem com insistência ao Dono da messe, para que envie muitos operários para o seu campo (cfr. Mt 9, 37-38). Para S. Josemaria, a pujança da vitalidade sobrenatural de uma Diocese é medida pelo número de vocações sacerdotais, das quais os primeiros responsáveis são os próprios sacerdotes.
Como se entristecia ao encontrar-se com algum que se tinha despreocupado deste trabalho! Porque esse descuido constitui um sinal claro de que esse sacerdote não está contente com a sua vocação. Vem à minha memória a sua resposta imediata a uma pergunta sobre as causas da escassez de vocações para os seminários: «Talvez a primeira razão seja que muitas vezes nós, os sacerdotes, não damos o devido valor ao tesouro que temos nas mãos e, por isso, não inflamamos a gente nova no desejo de possuir este tesouro. Os seminários estariam cheios, se nós amassemos mais o nosso sacerdócio» 27.
A sua preocupação pela santidade do clero já vinha de há longo tempo. Tinha muito claro que o primeiro apostolado dos sacerdotes deve ser com os próprios sacerdotes: não os deixar sós nos desgostos, partilhar as suas alegrias, animá-los nas dificuldades, fortalecê-los nos momentos de dúvida… Conservou gravadas a fogo na sua alma aquelas palavras da Escritura Santa: frater, qui adiuvatur a frate, quasi civitas firma (Prov 18, 19), o irmão ajudado pelos seus irmãos é forte como uma cidade amuralhada.
Tão intensamente crescia o seu desejo de ajudar os seus irmãos no sacerdócio, que em 1950, quando o Opus Dei tinha recebido a aprovação definitiva da Santa Sé, pensou dedicar-se totalmente aos sacerdotes diocesanos. Quando já tinha oferecido ao Senhor o sacrifício de Abraão – pois estava decidido a deixar a Obra, se tivesse sido necessário –, o Céu mostrou-lhe que não era preciso esse sacrifício. No espírito do Opus Dei, que ensina os cristãos a santificarem-se no meio do mundo, cada um na própria ocupação ou tarefa, também havia o mesmo lugar de encontro com Deus para os sacerdotes diocesanos; bastava que, em plena comunhão com o seu Ordinário e com o presbitério da Diocese, procurassem a santidade no exercício dos deveres ministeriais, tratando com especial veneração o Bispo diocesano, unidos intimamente aos seus irmãos no sacerdócio. As portas da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, a que pertenciam já os clérigos incardinados no Opus Dei, abriam-se para acolher os sacerdotes diocesanos que recebessem este chamamento divino específico.
Hoje, nas terras de La Rioja, onde o trabalho do Opus Dei se encontra perfeitamente integrado na Diocese desde há muitos anos, elevo o meu coração agradecido à Santíssima Trindade pelos copiosos frutos que também a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz já produziu e continua a produzir, no serviço da Igreja universal e das Igrejas particulares. Tudo é fruto da graça que Deus nos concede por meio da sua Santíssima Mãe; graça a que S. Josemaria correspondeu plenamente há oitenta e cinco anos, quando - precisamente em Logronho – recebeu a chamada ao sacerdócio.
1)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Homilia Sacerdote para a eternidade, 13-IV-1973.
2)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados numa reunião familiar, 28-III-1966.
3)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Carta 2-II-1945, n. 4
4)Sal 118/119, 100.
5)CONCILIO VATICANO II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 40.
6)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Caminho, n. 285.
7)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Homilia Sacerdote para a eternidade, 13-IV-1973.
8)JOÃO PAULO II, Dom e mistério.
9)JOÃO PAULO II, Dom e mistério.
10)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Homilia Sacerdote para a eternidade, 13-IV-1973.
11)JOÃO PAULO II, Dom e mistério.
12)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Homilia Sacerdote para a eternidade, 13-IV-1973.
13)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados numa reunião familiar, 10-V-1974.
14)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Homilia Sacerdote para a eternidade, 13-IV-1973.
15)D. ÁLVARO DEL PORTILLO, Escritos sobre o sacerdócio, 6ª ed., Rialp 1991, p.23.
16)D. ÁLVARO DEL PORTILLO, Escritos sobre o sacerdócio, 6ª ed., Rialp 1991, p. 27.
17)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Carta 24-III-1930, n. 20.
18)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados de uma meditação, 25-XII-1972.
19)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados de uma meditação, 25-XII-1972.
20)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados de uma meditação, 25-XII-1972.
21)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Amigos de Deus, n. 190.
22)JOÃO PAULO II, Dom e mistério.
23)D. ÁLVARO DEL PORTILLO, Escritos sobre el sacerdocio, 6ª ed., Rialp 1991, pp.188.
24)D. ÁLVARO DEL PORTILLO, Escritos sobre el sacerdocio, 6ª ed., Rialp 1991, pp. 188-189.
25)D. ÁLVARO DEL PORTILLO, Escritos sobre el sacerdocio, 6ª ed., Rialp 1991, pp. 84-85.
26)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados numa reunião familiar, 10-IV-1969.
27)S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Apontamentos tirados numa reunião com sacerdotes, 3-XI-1972.
Discurso na sessão solene celebrada em honra do fundador do Opus Dei, no Seminário diocesano de Logronho, onde São Josemaria foi aluno, Logronho, 20-I-2003.
Actas do Congresso "La grandeza de la vida corriente", Vol. X Sacerdotes santos, sacerdotes cien por cien, EDUSC, 2004
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