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S.O.S. para ter paz

Andrés Vázquez de Prada

Etiquetas: Abandono em Deus, Coração
S. Josemaria num andaime das obras de construção de Villa Tevere, sede central do Opus Dei, em Roma
S. Josemaria num andaime das obras de construção de Villa Tevere, sede central do Opus Dei, em Roma
Na festa de Cristo Rei do ano de 1952, S. Josemaria atravessava momentos de dificuldade económica e de contradições relacionadas com a sua pessoa. Decidiu então consagrar o Opus Dei e os seus apostolados ao Coração de Jesus.

S. Josemaria tinha nas mãos o Opus Dei, empresa de almas para glória de Deus e serviço da Igreja, necessitada de meios materiais. “Ante as dificuldades económicas que estamos a viver, não há outro remédio senão pôr os meios sobrenaturais e esgotar os humanos”, dizia. O fundador e os fiéis da Obra viram-se “com a água pela barba” e apertadíssimos de dinheiro, mas confiando em que Deus não os abandonaria”

Uma prova à serenidade
Em meados de 1952, a situação económica era, de todos os pontos de vista, insustentável. A dívida tinha adquirido proporções de tal forma alarmantes, que não conseguiam reduzi-la. A procura de novos créditos bancários, donativos e esmolas tornava-se infrutífera. E, para agravar ainda mais a situação, ressurgiram “certos aborrecimentos que algumas pessoas nos criam” (era assim que o Fundador chamava, com delicado eufemismo, aos novos assomos da contradição). Tudo isto submetia a uma dura prova a paz de espírito do Padre, que recorreu, como sempre, a uma oração mais intensa.

Procurar refúgio no Coração de Jesus
Todas as noites o Padre Josemaria depositava um beijo amoroso nos Corações, acompanhado de uma jaculatória: “Coração de Jesus, dai-nos a paz! Doce Coração de Maria, sede a minha salvação!”
“Concede-nos a graça de encontrar no divino Coração de Jesus a nossa morada; e estabelece nos nossos corações o lugar do Teu repouso, para assim permanecermos intimamente unidos: a fim de que um dia Te possamos louvar, amar e possuir por toda a eternidade no Céu, em união com o Teu Filho e com o Espírito Santo. Amen”. (Fragmento da Consagração ao Coração de Jesus)
No meio dos apuros pecuniários, e como que para forçar a mão do Senhor, o Padre pediu aos seus filhos de Madrid, em carta de 1 de Agosto de 1952, que no dia seguinte dissessem muitas vezes a jaculatória Cor Iesu sacratissimum, dona nobis pacem! No começo do mês de Setembro, o Fundador, vendo que o empreendimento romano ia a pique, lançou um S.O.S., para ver se o Senhor quereria “pôr fim a esta tortura”. As obras estavam sem solução à vista quando decidiu consagrar o Opus Dei, com todos os seus membros e apostolados, ao Sagrado Coração de Jesus.
“Dentro em breve farei a consagração ao Sagrado Coração, anuncia aos seus filhos do México. Ajudem-me a prepará-la, repetindo muitas vezes: Cor Iesu sacratissimum, dona nobis pacem”.
E, a modo de post-scriptum, a petição de auxílio: “S.O.S. Continuamos com a água pela barba. E também com a mesma confiança no nosso Pai-Deus”.

Na festa de Cristo Rei
Aproximava-se o dia 26 de Outubro, Festa de Cristo Rei, a data marcada para a cerimónia da consagração, e o Padre Josemaria animava todos os seus filhos a que o ajudassem a fazê-la “a seu gosto”, ao gosto do Coração de Jesus. Estava metido num atoleiro tal que, a avaliar por aquilo que escreve, se sentia encurralado, sem escapatória possível, atado de pés e mãos.
“Empregamos os meios humanos e rezamos, por aqui. Mas – insisto – não se avista saída [...]. Se não desatarmos este nó antes do final do mês, podemos levar uma pancada que será uma alegria para Satanás”.

Dez dias de alívio antes do previsto naufrágio, se Deus não remediasse a situação. Entretanto, o Fundador continuava a pedir ajuda, com receio de que as obras parassem. Confiava em que Nossa Senhora os não desampararia, e em que, ao aproximar-se o dia da consagração da Obra, o seu Divino Filho não poderia deixar de responder ao clamor de tanta oração.

Um coração que sofre pelo mundo
Perante os contratempos suscitados pelo andamento das obras – e as restantes desventuras que o consumiam, como adiante veremos -, o Padre não se amedrontava. Mantinha-se firme, mas era indubitável que sofria com tudo, especialmente com os padecimentos que afectavam os seus filhos. O seu coração, grande e aberto ao mundo, ultrapassava as necessidades da Obra e dos seus apostolados, preocupando-se com tudo aquilo que alterava a paz universal: ódios fratricidas, confrontos sociais, perseguição à Igreja e guerras entre os povos. Tomava essas lutas como questões suas, suplicando milhares de vezes por dia: Cor Iesu sacratissimum, dona nobis pacem!
“A Obra de Deus”, tinha escrito, “nasceu para estender a todo o mundo a mensagem de amor e de paz que o Senhor nos legou; para convidar todos os homens ao respeito pelos direitos da pessoa.
[...] Vejo a Obra projectada nos séculos, sempre jovem, garbosa, bela e fecunda, defendendo a paz de Cristo, para que todo o mundo a possua”.

Sem outra liberdade senão a de amar
No dia marcado para a consagração – 26 de Outubro de 1952 -, o pequeno oratório contíguo ao seu quarto de trabalho ainda não estava concluído. Quando, dias mais tarde, escreve aos seus filhos de Madrid, ainda se percebe nitidamente que está muito satisfeito com a façanha: ter subido três escadas de mão até chegar ao oratório, para aí fazer a consagração:
“Contente: fiz a consagração, subindo três escadas de mão – uma atrás da outra! – para chegar ao oratório. Virá a paz, em todos os terrenos! Tenho a certeza”.

Nesse dia tinha consagrado a Obra, com todos os seus trabalhos apostólicos; e as almas dos membros do Opus Dei, com todas as suas faculdades, os seus sentidos, os seus pensamentos, as suas palavras, as suas acções, os seus trabalhos e as suas alegrias; e
De um modo especial Te consagramos, rezava a fórmula, os nossos pobres corações, para que não tenhamos mais liberdade que a de Te amar a Ti, Senhor”.

Em Roma, 1954. À direita vê-se  Javier Echevarría, actual prelado do Opus Dei
Em Roma, 1954. À direita vê-se Javier Echevarría, actual prelado do Opus Dei
Optimista e seguro
A sua alma foi sendo lentamente invadida pela paz, como chuva suave e benéfica. Não foi uma alteração repentina, nem um prodígio surpreendente. A felicidade interior – o gaudium cum pace – surgiu como uma brisa, restabelecendo na alma a alegria, a segurança e o optimismo:
“Até agora, não se entrevê a solução económica. Mas estou contente e seguro. Espero muito desta consagração!

A contradição abrandou, embora não tivesse cessado por completo, já que as calúnias eram como um monstro de sete cabeças. O peso esmagador das dívidas cedeu ligeiramente; foi possível atrasar alguns pagamentos; receberam pequenos donativos e hipotecaram o terreno e uma parte do que já tinha sido construído.
Com a consagração, a sua audácia aumentou; declarava-se optimista e seguro. No Coração de Jesus encontrou paz e refúgio, em conformidade com a petição feita a 26 de Outubro:
“Concede-nos a graça de encontrar no divino Coração de Jesus a nossa morada; e estabelece nos nossos corações o lugar do Teu repouso, para assim permanecermos intimamente unidos: a fim de que um dia Te possamos louvar, amar e possuir por toda a eternidade no Céu, em união com o Teu Filho e com o Espírito Santo. Amen”.

Fonte: Andrés Vázquez de Prada, Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei (III)