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Tabgha, Igreja do Primado

J. Gil

Etiquetas: , História, Papa, Terra Santa, Pegadas da nossa Fé
Pegadas da nossa Fé

Poucos lugares da Terra Santa nos aproximam tão imediatamente do Novo Testamento como o Lago de Genesaré, na Galileia. Noutros sítios, após dois mil anos de história, a topografia transformou-se radicalmente: edificaram-se igrejas, santuários e basílicas; alguns foram destruídos, reconstruídos, ampliados ou restaurados; muitas aldeias e povoações converteram-se em populosas cidades, enquanto outras desapareceram; foram abertas ruas, estradas, auto-estradas... Pelo contrário, no lago, embora as suas imediações não tenham ficado alheias a estas modificações, a paisagem mantém-se quase inalterada; a sua contemplação, que recreia a vista e descansa o espírito, enche a alma de uma sensação inexplicável: a recordação de Jesus e o eco das suas palavras, que ainda parecem ressoar nestas paragens, fazem transcender o tempo presente.

Contudo, no passado talvez não se respirasse tanta calma nesta zona. Quando Jesus percorreu estas terras, nada menos do que dez povoações eram banhadas pelo lago ou se reflectiam nas suas águas desde as colinas circundantes. Existia um comércio próspero de uma a outra margem, sustentado por inúmeras embarcações. Nenhuma dessas barulhentas cidades chegou até nós. Só a moderna Tibéria de algum modo recorda a Tibéria romana, a mais jovem das antigas, fundada no princípio da nossa era e então situada mais a sul. Das povoações que Jesus conheceu, somente podemos fazer uma ideia através das suas ruinas.

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A riqueza da região ficava a dever-se em primeiro lugar aos recursos da pesca no lago, que tem vinte e um quilómetros de comprimento de norte a sul, uma largura máxima de doze quilómetros, e uma profundidade média de quarenta e cinco metros. O seu caudal procede principalmente do rio Jordão e de algumas nascentes nas suas margens ou sob a superfície da água. A pesca mais abundante é de “tilapie”, também conhecido como “peixe de S. Pedro”.

No princípio da sua vida pública, Cafarnaum converteu-se na segunda pátria de Jesus
A agricultura constituía o outro meio principal de subsistência. Uma vez que se encontra a 210 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo, a região goza de um clima temperado no inverno e primavera, enquanto sofre de um calor sufocante em muitos dias de verão. Estas condições são favoráveis a uma vegetação de tipo subtropical. O historiador Flávio Josefo foi testemunha da fertilidade que aí se encontrava no primeiro século: «esta terra não rejeita nenhuma planta, e os agricultores cultivam nela de tudo, pois a temperatura suave do ar é apropriada para diversas espécies. As nogueiras, que são, em princípio, árvores de climas frios, florescem aqui em abundância. E junto a elas também germinam as palmeiras, que crescem em zonas quentes, e as figueiras e as oliveiras, que pedem uma temperatura mais temperada.

Poderíamos falar de um regozijo da natureza, que se esforçou por unir num só lugar espécies tão contrárias, e de uma formosa competição das estações, onde cada uma delas parece aspirar a impor-se nesta terra. Pois esta região não só produz os mais diversos frutos, contrariamente ao que se esperaria, mas também os conserva. Durante dez meses sem interrupção produz aqueles que são considerados os reis de todos os frutos, quer dizer, as uvas e os figos, enquanto os restantes produtos amadurecem ao longo de todo o ano. Além da boa temperatura do ar, a zona é regada por uma fonte muito caudalosa, que os povos locais chamam Cafarnaum. Alguns acreditavam que era um braço do Nilo, pois nele se cria um peixe parecido com a corvina do lago de Alexandria» (Flávio Josefo, A guerra dos judeus, III, 516-520).

Os vestígios mais importantes da passagem do Senhor por estas terras conservam-se na parte noroeste do lago de Genesaré, perto de Cafarnaum. No princípio da sua vida pública, depois de ter abandonado Nazaré, Jesus converteu na sua segunda pátria essa pequena povoação de pescadores, onde alguns dos Doze ou seus parentes habitavam. São tantos os lugares que merecem a nossa atenção nesta região, que lhe dedicaremos vários artigos durante o ano.

A oeste de Cafarnaum

Foto: Jon Lai Yexian. Flickr.
Foto: Jon Lai Yexian. Flickr.
O nosso percurso começa em Tabgha. Trata-se de um local situado a três quilómetros a oeste de Cafarnaum, que se estende por alguns hectares desde a margem do lago para o interior, até às colinas que o rodeiam. O nome parece ser uma derivação árabe do original bizantino Heptapegon, que em grego significa “sete fontes”: deve-se às nascentes que então existiam, e que continuam ainda hoje activas. De acordo com a tradição dos cristãos que habitaram aquela zona ininterruptamente desde os tempos de Jesus, ali teria multiplicado os cinco pães e os dois peixes para dar de comer a uma multidão (Cf Mt 14, 13-21; Mc 6, 32-44; Lc 9, 12-17; Jo 6, 1-15); ali teria pronunciado o Sermão da Montanha que começa com as Bem-Aventuranças (Cf Mt 5, 1-11; Lc 6, 17-26); e ali teria aparecido aos Apóstolos depois da Ressurreição, quando levou a cabo a segunda pesca milagrosa e confirmou S. Pedro como primaz da Igreja (Cf Jo 21, 1-23). Apenas umas centenas de metros separam os três lugares onde se situam estes episódios da vida do Senhor.

Um texto atribuído à peregrina Egéria, que visitou a Palestina no séc. IV, oferece-nos um testemunho eloquente quanto à memória cristã sobre Tabgha: «não longe de Cafarnaum vêem-se os degraus de pedra onde o Senhor se sentou. Ali, junto ao lago, encontra-se um terreno coberto de abundante erva e muitas palmeiras e, perto do mesmo lugar, sete fontes jorrando água abundante de cada uma delas. Neste lugar o Senhor saciou uma multidão com cinco pães e dois peixes. A pedra sobre a qual Jesus pousou o pão foi transformada num altar. Junto às paredes daquela igreja passa a rua, onde Mateus tinha o seu telónio. No monte vizinho há um lugar onde o Senhor subiu para pronunciar as Bem-Aventuranças» (O texto aparece no Liber de Locis Sanctis, escrito pelo monge de Monte Cassino S. Pedro Diácono, em 1137).

Este lugar lembra o sítio onde Jesus confirmou Pedro como pastor supremo da Igreja
Concentramos a nossa atenção no primeiro sítio indicado por Egéria: «os degraus de pedra onde o Senhor se sentou». Segundo esta tradição, referem-se ao sítio de onde Jesus teria indicado aos da barca que deitassem as redes à sua direita, durante a aparição do Senhor ressuscitado que S. João narra no fim do seu evangelho: “Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora.» Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: «Vinde almoçar.» E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Esta já foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.” (Jo 21, 2-14).

Fotografía dos finais do séc. XIX em que se pode ver como eram então as barcas que se utilizavam no lago. Foto: Chatham University JKM Library – Flickr.
Fotografía dos finais do séc. XIX em que se pode ver como eram então as barcas que se utilizavam no lago. Foto: Chatham University JKM Library – Flickr.
O relato de Egéria não afirma que existisse uma igreja na margem onde Jesus apareceu, mas um texto tardio - dos séc. X-XI – atribui à imperatriz Santa Helena a construção de um santuário dedicado aos Apóstolos no lugar onde o Senhor comeu com eles. Alguns documentos a partir do séc. IX denominam-no indistintamente ‘Mensa, Tabula Domini’, dos Doze Tronos ou das Brasas, tudo nomes que recordam aquele almoço. Através de um testemunho da Idade Média, sabemos também que o templo estava particularmente dedicado ao Príncipe dos Apóstolos: «no sopé do monte está a igreja de S. Pedro, muito bela, mas abandonada», afirma o peregrino Saewulfus em 1102 (Saewulfus, Relatio de peregrinatione ad Hierosolymam et Terram Sanctam). Após diversas vicissitudes, foi definitivamente destruída em 1263. A actual, construída pelos franciscanos em 1933 sobre as fundações da antiga capela, chama-se Igreja do Primado para recordar o sítio onde Jesus confirmou Pedro como pastor supremo da Igreja: “Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.” (Jo 21, 15-17).

Investigações arqueológicas realizadas em 1969 confirmaram que sob a igreja do Primado se encontram restos de dois santuários mais antigos: do primeiro, datado de finais do séc. IV, restam alguns fragmentos das paredes com reboco branco; o segundo, construído cem anos mais tarde em basalto, é reconhecível nas paredes perimetrais. Ambos tinham como centro uma rocha chamada pelos peregrinos ‘Mensa Christi’, que atualmente se continua a venerar diante do altar como o local da refeição com os Apóstolos. Além disso, os degraus referidos por Egéria podem-se observar na parte exterior, no lado sul da capela, protegidos por um portão.

As investigações arqueológicas confirmaram que sob a igreja do Primado se encontram restos de dois santuários datados dos séculos IV e V. Foto: Alfred Driessen.
As investigações arqueológicas confirmaram que sob a igreja do Primado se encontram restos de dois santuários datados dos séculos IV e V. Foto: Alfred Driessen.

Diálogo com Jesus

Comentando o diálogo entre Jesus e S. Pedro que considerámos, S. Leão Magno - pontífice romano entre os anos 440 e 461 - destacava que a solicitude do Príncipe dos Apóstolos se estende especialmente aos seus sucessores: «em Pedro robustece-se a fortaleza de todos, de tal modo se ordena o auxílio da graça divina, que a firmeza conferida a Pedro por Cristo se dá aos outros apóstolos por Pedro. Por isso, depois da ressurreição, o Senhor, para manifestar a tripla confissão de amor eterno, depois de ter dado ao bem-aventurado apóstolo Pedro as chaves do reino, numa manifestação plena de mistério, diz três vezes: apascenta as minhas ovelhas. E fá-lo sem dúvida agora, e o piedoso pastor manda que se realize o mandato do Senhor, confirmando-nos com exortações e rezando por nós sem cessar, para que não sejamos vencidos por nenhuma tentação. Se ele realiza este cuidado da sua piedade para com todo o povo de Deus, e em toda a parte, como se há-de crer, quanto mais se dignará conceder a sua ajuda a nós, que fomos imediatamente instruídos por ele, que estamos junto ao sagrado leito do seu sono, onde descansa a mesma carne que presidiu?» (S. Leão Magno, Homilia na festa de S. Pedro Apóstolo).
A rocha onde o Senhor teria comido com os discípulos  conserva-se no interior da igreja. Foto: Berthold Werner – Wikimedia Commons.
A rocha onde o Senhor teria comido com os discípulos conserva-se no interior da igreja. Foto: Berthold Werner – Wikimedia Commons.

No início do seu pontificado, Bento XVI também se referiu à missão de velar pela Igreja que o Senhor confiou a Pedro e aos seus sucessores, e por três vezes pediu orações para ser fiel ao seu ministério: «uma das características fundamentais deve ser a de amar os homens que lhe foram confiados, assim como ama Cristo, a cujo serviço se encontra. "Apascenta as minhas ovelhas", diz Cristo a Pedro, e a mim, neste momento. Apascentar significa amar, e amar quer dizer também estar prontos para sofrer. Amar significa: dar às ovelhas o verdadeiro bem, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus, o alimento da sua presença, que ele nos oferece no Santíssimo Sacramento. Queridos amigos neste momento eu posso dizer apenas: rezai por mim, para que eu aprenda cada vez mais a amar o Senhor. Rezai por mim, para que eu aprenda a amar cada vez mais o seu rebanho, a Santa Igreja, cada um de vós singularmente e todos vós juntos. Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos. Rezai uns pelos outros, para que o Senhor nos guie e nós aprendamos a guiar-nos uns aos outros»
(Bento XVI, Homilia no solene início do ministério petrino, 24-IV-2005).