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Testemunhos

Também para sacerdotes diocesanos

Enrique Pèlach, bispo emérito de Abancay, Peru. A propósito de certas perseguições…

30 Março 2009

Etiquetas: Apostolado, Sacerdócio, Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, Vida interior
Tive a primeira informação do Opus Dei - e muito boa - em 1941, a propósito de uma de tantas perseguições que S. Josemaria Escrivá e a sua Obra sofreram, nessa altura em Barcelona.
Ainda seminarista, estando eu como vice-reitor do seminário de Gerona, o Reitor, o Doutor Damián Estela, recebeu a notícia de que em Barcelona tinham expulsado da Congregação Mariana dois jovens, por serem membros de uma “seita herética” chamada Opus Dei. Esta foi a notícia que chegou ao seminário de Gerona. Não sabíamos nada mais. O Reitor, alarmado pela proximidade que tínhamos com Barcelona, apenas 100 quilómetros, comentou-me a notícia. Ofereci-me para ir lá e averiguar sobre o sucedido.
Em Barcelona residia um sacerdote amigo, escritor, o Doutor Ricardo Aragó, que estava a par de tudo o que acontecia no mundo eclesiástico. Ele poderia informar-nos bem. Este sacerdote, mais velho do que eu, era oriundo de uma quinta muito próximo da dos meus pais, mas vivia em Barcelona.
No primeiro comboio da manhã fui para Barcelona e, da estação, em táxi, a Sarriá, a parte alta da cidade, onde vivia o doutor Aragó. Ficou surpreendido ao abrir-me ele mesmo a porta.
- Que milagre! O que te traz por cá?
- Necessito de uma informação.

E quase sem preâmbulos, já sentados, perguntei-lhe sobre a “heresia” do Opus Dei.
- Não é heresia, disse-me, mas uma obra de muito bem e de grande futuro para a Igreja.

Pensei que não me tinha explicado bem, e insisti.
- Não, doutor Aragó, pergunto sobre uma heresia que dizem que é muito perniciosa e que desorienta especialmente a juventude.
- Sim, claro, o Opus Dei – repetiu; não é uma heresia, mas uma organização de um grande porvir para a Igreja. É uma obra muito boa.

Então contou-me com muitos pormenores quem era o Fundador, quando tinha nascido o Opus Dei, o que pretendia e porque era perseguido injustamente, inclusivamente por gente boa que via heresias onde havia uma chamada universal à santidade e um querer ser santo no meio do mundo, metido nos trabalhos e afazeres da vida corrente.
Saí para apanhar o comboio para Gerona com uma ideia bem clara: o Opus Dei não era uma heresia, mas sim uma obra boa e de muito porvir para a Igreja. O Reitor do Seminário não tinha com que se preocupar. Contei-lhe a longa entrevista, com um sem fim de pormenores, e ficava claro que não havia razão para temores, mas para nos alegrarmos de que Deus tivesse suscitado algo de tão bom na Igreja.

Ano Santo 1950
Estava a terminar a década de 40, era precisamente o dia 3 de Dezembro de 1949, quando conheci pessoalmente o Fundador do Opus Dei.
Em Roma vivia-se uma grande expectativa pelo Ano Santo de 1950, que prometia grandes celebrações. O embaixador espanhol junto da Santa Sé, D. Joaquin Ruiz Jiménez, teve a feliz ideia de organizar um almoço e encontro da elite da comunidade espanhola em Roma, para conversar sobre o Ano Santo. Encontrava-me aí por esses anos.
Na grande sala de jantar do Colégio, nós, os alunos, ficávamos nas mesas junto às paredes, e ao centro umas tantas mesas em forma de T, os convidados. Na mesa da presidência estava Mons. Escrivá junto ao Embaixador, o Reitor D. Jaime Flores e outras personalidades. Era o dia 3 de Dezembro de 1949, ao meio-dia, e não o esqueço.

Mons. Escrivá era muito solicitado por todos, uns e outros cumprimentavam-no e falavam com ele. Fui-me aproximando e, já perto dele, apresentei-me e acrescentei que lhe queria pedir um conselho.
- Diz-me, meu filho, que queres?
Em poucas palavras, expus-lhe o meu projecto e a minha grande dificuldade: os senhores bispos.

- Olha, meu filho, -disse-me sem hesitar - em primeiro lugar reza muito por essa intenção, em segundo lugar oferece estudo, trabalho, horas…; depois, fala a sós e confiadamente com cada um dos bispos; e em quarto lugar, põe o projecto em marcha.

Não acrescentou mais nada; e eu também não. Agradeci-lhe o conselho e retirei-me do grupo. Ficou tão gravado a fogo o que me disse, que já passaram muitos anos e recordo-o textualmente. A 7 de Janeiro regressava de Roma tendo já em marcha toda a organização inicial que planeara.
Entretanto, decorria o Ano Santo, realmente esplendoroso, em Roma. A meados de Maio foi a canonização de Santo António Maria Claret, um santo catalão - de Vich - que fora Bispo em Cuba. Vieram à canonização muitos espanhóis, e o embaixador Ruiz Jiménez ofereceu, de novo, um almoço e recepção no mesmo Palácio Altems – sede do Colégio espanhol - a personalidades vindas de Espanha e a algumas da comunidade espanhola de Roma.

Mons. Escrivá era também um dos convidados, e esta foi a minha oportunidade para lhe agradecer o seu acertado conselho. Como da vez anterior -3 de Dezembro -, depois da visita ao Santíssimo, aproximei-me e ele disse-me logo de seguida:
- Lembro-me de ti, meu filho.

E antes de lhe poder dizer alguma coisa, agarrou-me pelo braço e fomos caminhando rapidamente, fugindo do barulho, até a uma galeria aberta, que havia em frente, do outro lado do pátio interior. Ali não estava ninguém. Parámos e ele ouviu-me: agradeci-lhe o seu bom conselho; contei-lhe as diligências feitas e que o projecto de ser missionário já estava em marcha.

Não fez nenhum comentário. Ao terminar agarrou-me pelo braço esquerdo, apertando-me fortemente contra o seu peito e começámos a andar ao longo da galeria. Mons. Escrivá ia-me falando de tema bem diferente daquele que eu lhe expusera. Embora estivesse relacionado. Falava-me do sacerdócio, de santidade, de amor à Igreja, de entrega pessoal, de pôr Cristo no cume de todas as actividades humanas. Fiquei impressionadíssimo! Apercebi-me de que era um homem de Deus, um sacerdote santo que me estava a falar.
Ao chegar ao fim da galeria, não me soltou do braço; demos a volta e continuou a falar-me, caminhando da mesma maneira, eu apertado contra o seu peito. Recordo que era um caminhar um pouco incómodo, porque as duas batinas enredavam-se, mas no final da galeria também não me largou e assim demos umas quantas voltas – talvez umas oito ou dez -, devagar, sempre a falar-me com palavras de fogo e eu respondendo com alguns monossílabos.

O impacto que me causou foi indescritível. Encontrar-me de repente com um sacerdote santo que se interessava pelo essencial da minha vida e de modo tão directo e pessoal, foi algo tão profundo que, quando quis refazer toda a conversa - a minha parte foi mínima -, já não conseguia. A impressão foi avassaladora e os propósitos surgiam.
Naquele momento o clero diocesano não tinha cabimento no Opus Dei. Tê-lo-ia um mês mas tarde, a 16 de Junho daquele ano de 1950, quando Pio XII assinou a aprovação definitiva do Opus Dei, do qual faz parte inseparavelmente unida a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, em que se poderiam associar outros sacerdotes diocesanos. Não soube nessa altura daquela aprovação de tão grande transcendência, que viria a ter tanto com a minha vida.

O Opus Dei em Gerona
Ao terminar os meus estudos universitários em Roma em 1951, regressei a Gerona ao meu seminário. No ano seguinte um grupo de jovens faria um retiro pregado pelo P.e Florencio Sánchez Bella, sacerdote do Opus Dei que vivia em Barcelona.

Ao regressar foram a casa do meu amigo Enrique Salvatella, que me telefonou a perguntar a que horas eu podia receber um sacerdote do Opus Dei que tinha acabado de lhes pregar um retiro em Bañolas e que desejava falar comigo.
- Olha Enrique - disse-lhe - estou a ouvir pelo telefone o rumor de vozes de homens, que devem ser os que estiveram no retiro.
- É isso mesmo, estão a conversar com o sacerdote.
- Pois então vou a tua casa, e assim não lhe tiro tempo. No Seminário estamos já de férias.

Com a capa solene e o chapéu de feltro que usávamos naquela época, em dez minutos, apresentei-me no terceiro andar da rua de Santa Clara.
- É melhor ficarem no meu escritório - desculpou-se Enrique -, porque tenho a casa cheia.
- Estou a ouvi-los e parece estarem muito contentes.
- Foi fantástico! Aqui poderão falar tranquilamente. Vou avisar o sacerdote.

Logo de seguida entrou rapidamente aquele sacerdote jovem – o P.e Florencio - Mal nos cumprimentámos, como se fôssemos velhos amigos - nunca nos tínhamos falado antes -, disse-me com o seu modo de falar rápido e seguido:
- Estes senhores fizeram um retiro em Bañolas. Alguns são já do Opus Dei e outros querem sê-lo. Perguntei-lhes quem os poderia confessar e dirigir, um sacerdote que entendesse o Opus Dei – e como eu vivo em Barcelona -, falaram-me do P.e Pélach. Parece que todos te conhecem. Estás de acordo?
- Espera um momento -disse-lhe.
- Tens alguma objecção contra o Opus Dei?
- Não, nenhuma. Admiro-o, mas conheço-o pouco. Dizes-me que alguns são já do Opus Dei e que outros querem sê-lo. Terás de me contar alguma coisa do Opus Dei. Se não como é que os posso dirigir?
- Olha, a espiritualidade destes senhores é perfeitamente secular, como é a de um sacerdote diocesano.

Como impulsionado pelas molas do sofá, pus-me de pé.
- Que há no Opus Dei para os sacerdotes diocesanos? – perguntei.

O P.e Florêncio deu uma gargalhada e disse-me:
- Senta-te, senta-te… E começou a contar-me.
Enquanto o escutava muito surpreendido, pensei que não me tinha dado conta de tudo isso durante os anos que estive em Roma, na universidade, e comentei-lhe muito convencido:
- Então deve haver muitos sacerdotes diocesanos no Opus Dei!
- Olha, na Obra as estatísticas não contam - limitou-se a dizer.

Confesso que isto me causou uma especial alegria. O bem deve ser feito sem estridências. (Mais tarde soube que eu tinha sido o primeiro sacerdote diocesano de Espanha e do mundo a pedir a admissão na Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz).

O P.e Florêncio continuou a contar-me pormenores desta novidade, que eu ia descobrindo e na qual me estava embebendo. Num momento em que me falava da universalidade da Obra, perguntei-lhe:
- Está previsto que um sacerdote diocesano possa ir para as missões?
- Sim - respondeu-me - mas o Padre escreveu numa instrução que ele deverá ir integrado num grupo e com a certeza de poderem ter sempre acompanhamento humano e sobrenatural, conforme o nosso espírito.

Outra vez de pé e convencido exclamei:
- Sendo assim, inscreva-me!!!
- Não, agora não. Tens de pensar no assunto bem e rezar muito.
- Inscreva-me – repeti -. Já está bem pensado e rezado, inclusivamente procurei isto por toda a Europa.
- E dá-se a coincidência que o encontras aqui mesmo em Gerona - comentou sorridente.

Continuamos a conversar mais uns momentos. Depois disse-me que voltaria dentro de oito dias e que continuaríamos a conversa. Que recomendasse à Nossa Senhora a minha vocação para o Opus Dei. E assim nos despedimos. Ao descer as escadas dei-me conta de que não tínhamos falado nada daquilo que se referia à direcção espiritual daqueles senhores, apenas do que se referia a mim.
Caminhava radiante de alegria com o pensamento e a imaginação em pleno, tanto que quase a meio da ponte sobre o rio Oñar, dei-me conta que estava parado e dizia algo que era mais que um sussurro: “Estic pescat”…(pescaram-me). O ruído das palavras despertou-me e, caminhando rapidamente, cheguei, como num relâmpago, diante do sacrário da Igreja do Seminário.

A espera
E rezei muito… A cada momento. Vinha-me constantemente a recordação da grande descoberta. Ali estava o tesouro escondido que tinha procurado através de sete nações, a pérola preciosa da parábola do Evangelho. Sentia-me um homem feliz.

Os oito dias tardavam em passar, e não foram oito mas dez, até que chegou para estar comigo e conversar, não o P.e. Florencio, mas outro sacerdote, o P.e. Emílio Navarro. Na conversa - que durou horas - foi-me dando pormenores da vida e do espírito do Opus Dei. Também me deu para ler um escrito do Fundador, disse-me que Deus chama a cada um onde está e que por ter vocação para o Opus Dei não se tira ninguém do seu lugar, e consequentemente o sacerdote diocesano sempre obedecerá ao seu Bispo. Que não teria superior algum no Opus Dei, do qual receberia o espírito inspirado por Deus ao Padre Escrivá e a ajuda sobrenatural para me santificar no meu ministério, “por ser esse o trabalho do sacerdote” – acrescentou. Falou-me de unidade de vida, da importância das coisas pequenas, de amar a vida normal e corrente, de estar muito unido aos outros sacerdotes, do “nihil sine episcopo” [nada sem o bispo], e de muitas coisas mais.

Estava de acordo com tudo e desejava oficializar a minha entrega quanto antes. Portanto, “inscreve-
-me de uma vez por todas no Opus Dei”. Sorriu… e disse-me que dentro de oito dias viria D. Florencio, que tratasse disso com ele e que, entretanto, continuasse a pensar bem no assunto e que o pusesse nas mãos da Virgem Santíssima que nos quer muito. Deu-me a direcção de D. Florencio e despedimo-nos.

Que belo era tudo! Que grande invenção para o sacerdote diocesano nunca se sentir sozinho e sempre ter a ajuda humana e sobrenatural de que necessita! Estava claro que era coisa inspirada por Deus. Estes e outros pensamentos tornavam longa a espera. Por que não me quererão inscrever, se já lhes disse e redisse a um e a outro que vejo as coisas claras e que estou totalmente decidido? Às vezes trauteava uma canção de amor que começa: “Quem espera desespera…”, e que mais adiante afirma: “Virá, virá a felicidade”.

Nem aos oito dias nem aos dez dias o P.e Florencio chegou. Tinha ido três dias seguidos à estação do caminho-de-ferro à sua espera, e nada. Tomei o primeiro comboio que ia para Barcelona e fui a Monterols.
- Que te traz por cá? -disse ao ver-me.
O que é que há-de ser?!

Deu-me um abraço e entrámos numa salinha. Conversámos longamente e, ao sair, sabia que tinha de escrever uma carta simples, familiar, ao Padre pedindo-lhe para fazer parte da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz.
(Soube então que para fazer parte não nos “inscrevem”…)
“Entretanto – disse-me ao despedir-se - continua a rezar e a oferecer e, quando for o dia de uma festa de Nossa Senhora que te agrade, escreve a carta: uma carta simples, familiar, ao Padre” - repetiu.
Datei-a de 5 de Agosto de 1952. Neste dia celebra-se a festa de Nossa Senhora das Neves. É a festa da Basílica de Santa Maria Maior, a primeira igreja construída no Ocidente em honra de Maria Santíssima. Um nevão indicou o lugar em Roma, depois do Concílio de Éfeso, que definiu como dogma de fé que a Mãe de Jesus, Filho de Deus, é verdadeira Mãe de Deus. Quis pôr nas mãos de Nossa Senhora a minha entrega no Opus Dei, que não queria jamais desmentir. Ela ajudar-me-ia a ser fiel.